Artigo: A arte marcial portuguesa vai desaparecer

Fonte: Jogo do Pau Português

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  • Relevância: ★★☆
  • Título: A arte marcial portuguesa vai desaparecer?
  • Autor: Nazaret Garcia
  • Publicação: Jornal «8ª Colina» de março 2006

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« São sete e meia da tarde e Nuno Russo come à pressa a sua sandes do costume antes de dar início a mais uma aula de jogo do pau, no Ginásio Clube Português de Lisboa (GCP). São estas duas horas semanais que o mestre aproveita ao máximo para ensinar aos seus alunos tudo aquilo que aprendeu desde 1968, altura em que começou a praticar esta modalidade, com apenas 15 anos. Hoje com cinquenta e dois anos, admite que muita coisa mudou: “o jogo do pau deixou de ser usado para defesa pessoal. Agora as poucas escolas que existem (excepto o GCP) só se dedicam à exibição. Adaptam técnicas que não têm nada a ver com o jogo do pau só para haver espectáculo”. É por isso que há cerca de 10 anos Nuno Russo desenvolveu um árduo estudo à volta do jogo do pau português. Conseguiu assim preservar todas as especificidades técnicas que muitos mestres entretanto já falecidos deixaram com os seus discípulos. Para que esta prática não caísse na mera demonstração continuou a desenvolver um jogo em que se confrontam vários adversários e criou uma armadura de protecção que se utiliza apenas em dias de treino especiais para que se possa desenvolver o principal objectivo desta arte de combate: atingir e magoar o outro jogador.

Contraste com o passado

São poucas as escolas onde ainda está activa esta modalidade, seja apenas como demonstração, como tradição bélica. Entre elas está a de Alhos Vedros, a de Breixos de Faria e o GCP. Neste último não se encontram inscritas mais de 12 pessoas e, entre elas, não há ninguém com menos de 28 anos. Esta realidade revela um grande contraste com a sociedade do Norte de Portugal no século XVIII, onde nas aldeias se ensinava o jogo do pau desde a infância. O pau fazia parte da indumentária do homem do campo, associado às suas deslocações a pé, mas usado sobretudo como arma elementar para se defender dos inimigos. Para isso foram desenvolvidas várias técnicas de movimento do pau. Existiam diferentes níveis de jogadores que se distinguiam através da cor da faixa que tinham à volta da cintura. A amarela indicava o principiante; a vermelha o moço namoradeiro, que tinha de estar preparado para se defender dos outros rapazes, e a preta aquele que já era casado. Nos dias de hoje esta escala cromática é utilizada para distinguir não um papel social, mas sim diferentes etapas técnicas. Com o aparecimento das armas de fogo em substituição do pau para a defesa pessoal, esta arte de combate foi-se reduzindo cada vez mais até que se viu “obrigada” a migrar com alguns mestres para o Sul. Assim, chegou até à capital. Mas também não foi aqui que atingiu o sucesso. Desde que o bastão extensível, a arma mais utilizada pelas forças de segurança a nível mundial, foi dado a conhecer em Portugal, a utilização do pau como instrumento de defesa deixou de fazer qualquer sentido. Nuno Russo apercebeu-se disso e começou também a dar aulas de bastão. “Eles agora só querem é bastão! É muito mais cómodo e mais fácil de transportar. Eu estou a tentar manter o jogo do pau vivo à custa do bastão, porque aqueles que fazem jogo do pau também fazem bastão”, explica o mestre, que também se apercebeu dos entraves que um pau com cerca de metro e meio pode trazer: “como técnica gosto mais do jogo do pau mas na minha mota levo sempre o bastão. O pau não dá jeito nenhum... quando tenho algum problema puxo do bastão e dou umas cacetadas!”. O jogo do pau é uma actividade presente também noutros cantos do mundo como na Inglaterra, França ou até mesmo na Índia, mas em cada um se desenvolveu uma especificidade técnica. Para Nuno Russo o jogo do pau tradicional português e não meramente exibicionista é único, não só comparado com os outros jogos do pau à volta do mundo mas também com qualquer outra arte marcial. “É um facto que o nosso tecnicamente bate a todos. Já desafiei muita gente com armas. Há pouco dei uma surra a um rapaz irlandês com 12 anos de prática em artes de combate japonesas e mandei-o para o hospital! E ele era um jovem com apenas 30 anos!”.

Uma modalidade ao abandono

A maioria dos alunos que vão às aulas de Nuno Russo no GCP são-lhe já conhecidos desde que treinavam com ele no Ateneu Comercial Português em 1972. Um deles é Fernando Antunes: começou a treinar com 17 anos e há 6 anos que é presidente da Federação Nacional do Jogo do Pau. Queixa-se da falta de apoios tanto das câmaras municipais, como de todas as outras instituições a quem já pediu ajuda para poder sustentar a existência do jogo do pau em Portugal. “Já apresentámos projectos à Câmara Municipal de Lisboa, ao Ministério da Cultura, ao Instituto da Juventude, ao Instituto do Desporto, à Fundação Gulbenkian... todos acham que é uma pena porque se vai perder uma arte tradicional portuguesa mas não passamos disso”. Para além da Federação Nacional do Jogo do Pau existe também a Associação Portuguesa do Jogo do Pau desde 1977, “desde que começámos a praticar. Nessa altura justificava-se porque havia cerca de 10 ou 12 escolas e conseguíamos juntar cerca de 300 pessoas a jogar ao pau. Agora somos menos de 100 praticantes efectivos!”, explica com indignação Fernando Antunes. O presidente da Federação ainda recorda a existência de algumas ajudas como a oferta de uma sede na Av. Estados Unidos da América pela Câmara Municipal de Lisboa em 2003 e o subsídio atribuído pelo Instituto do Desporto para que pudessem comprar os equipamentos mínimos de funcionamento (fax, fotocopiadora, etc.). Hoje a sede ainda existe, mas os subsídios desapareceram e “neste momento nem sequer temos dinheiro para pagar a conta da electricidade ou da água!”. A própria especificidade violenta deste desporto faz com que a procura por espaços disponíveis para treinar seja ainda mais difícil. “Por ser bélica é violenta. E por ser violenta estraga os sítios onde treinamos. Por exemplo uma paulada no chão de um ginásio faz mossa enquanto uma bola de futebol não faz”, constata o presidente. Daí entende-se a falta de interesse dos responsáveis dos ginásios pela utilização dos seus espaços para os treinos do jogo do pau. São vários os entraves que se colocam perante aqueles que lutam por manter uma das poucas (ou talvez a única) arte de combate tradicionalmente portuguesa. A tendência para a mera exibição, o aparecimento de novos instrumentos de combate mais discretos, a falta de apoios e de divulgação tanto do governo como das próprias empresas locais e por aí em diante. Na opinião de Fernando Antunes é imprescindível que se possa garantir o pagamento aos professores, mas o projecto mais urgente neste momento é a necessidade de fazer um documentário televisivo no qual se pudesse “filmar enquanto é possível a infinidade de técnicas que se mantêm e que foram surgindo em todas as escolas. Isto só por si envolve uma grande quantidade de dinheiro”. Mas o factor mais preocupante é a falta de interesse entre os jovens por esta modalidade já que o praticante mais novo que encontrámos nas aulas de Nuno Russo tem 28 anos. Este ano foi publicado nos Estados Unidos um livro sobre o jogo do pau português escrito em língua inglesa, com a autoria de Luís Preto, também aluno de Nuno Russo. Em Portugal pouca ou nenhuma informação conseguimos encontrar sobre esta arte de combate na qual reside a nossa história enquanto povo lutador do campo. »

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