Artigo: Fuzileiros sem armas agarram-se aos paus
Sobre
- Relevância: ★★☆
- Título: : Fuzileiros sem armas agarram-se aos paus
- Autor: Texto: Nuno Cunha, foto: Hermínio Clemente
- Publicação: Correio da Manhã de 19 janeiro 1985
Resumo
A notícia relata a experiência conduzida pela Marinha, através do Corpo de Fuzileiros, que desde Outubro testa a integração do Jogo do Pau português na preparação militar de um grupo de 15 elementos. Os responsáveis consideram os resultados encorajadores, destacando benefícios como a destreza, autoconfiança e capacidade de defesa pessoal em contexto de combate. A iniciativa, apoiada por figuras como Nuno Russo e com conhecimento do Presidente da República, surge não como preservação folclórica, mas como aplicação prática de uma arte marcial nacional, potencialmente útil em cenários tácticos, incluindo situações em que militares possam operar sem armamento convencional.
Paralelamente, a notícia contextualiza historicamente o Jogo do Pau, sublinhando a sua origem no Norte de Portugal e o seu uso tradicional como instrumento de defesa em ambientes rurais, especialmente em feiras. Após um período de repressão nas décadas de 1930, que levou à sua deslocação para regiões como a Estremadura e o Ribatejo, a prática entrou em declínio, mas conheceu um ressurgimento recente graças à acção de praticantes e associações. Esse renascimento tem vindo a aumentar o número de praticantes, fomentar estruturas organizadas e atrair apoios institucionais, consolidando o Jogo do Pau como disciplina desportiva e património marcial em revitalização.
Excerto do artigo
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« O interesse militar pela prática do jogo do pau português está a ser estudado num grupo de 15 elementos da Força de Fuzileiros do Continente, desde Outubro do ano passado. Com resultados que os responsáveis consideram animadores, o jogo do pau proporciona aos praticantes «noções de defesa pessoal e, em geral, favorece a destreza, a autoconfiança e a agilidade física em situações de combate», referiu Teixeira Rodrigues, um dos elementos do Estado-Maior do Corpo de Fuzileiros. No final do curso, que terá uma duração de nove meses, os 15 jogadores de pau serão testados em situações militares específicas — para se apurar da vantagem da aplicação desta modalidade aos planos de curso e de instrução dos Fuzileiros, disse. Não está em causa, para este corpo das Forças Armadas, a preservação de uma tradição, mas o seu interesse militar. O mesmo espírito não anima, no entanto, a Associação do Jogo do Pau de Lisboa, que se empenha em conseguir bons resultados para o desporto, mas beneficiando-o em meio de difusão muito eficaz para a modalidade física. Ao que afirmou Nuno Russo, membro da Associação actual mestre do jogo de pau dos Fuzileiros, foi sempre ambição dos jogadores que a modalidade fizesse parte da preparação militar de elementos das Forças Armadas portuguesas. — Esta é uma forma de garantir a manutenção até ao incremento do que é conhecido por esgrima portuguesa e que é uma arte marcial verdadeiramente nossa — garantiu Nuno Russo. Para atingirem este objectivo, pediram a intervenção do Presidente da República, que intercedeu junto dos três ramos das Forças Armadas para apurar do interesse militar da inclusão desta arte marcial nos treinos de algumas forças especiais. — O contacto com o Presidente foi feito durante uma exibição de pau no campeonato europeu de esgrima que teve lugar na FIL — disse Ramalho Eanes. — Assistiu ao campeonato e fez questão de cumprimentar os praticantes da esgrima portuguesa, oportunidade que foi aproveitada para lhe apresentar o seu desejo e, a partir daí, foram dados os passos necessários até ao lançamento da experiência, que agora decorre nos fuzileiros. Da parte dos 15 instrutores, todos voluntários, o interesse tem sido grande, «com progressos» — afirmou Nuno Russo — bastante superiores aos que normalmente se conseguem com o mesmo treino. — Tudo se inclina — de acordo com Teixeira Rodrigues — para que a modalidade se integre no treino levado a cabo pelas unidades tácticas das unidades. Um grupo de homens preparado para cenários de guerra poderia ser largado, por trás das linhas do inimigo, sem armas nem uniforme e, nem por isso deixaria de estar preparado para enfrentar alguns problemas mais elementares. — O pau é uma arma que existe por toda a Natureza — explicou o responsável dos Fuzileiros. Esta arte marcial teve a sua origem no Norte do País. As rixas nas feiras eram frequentes e raro era o homem do campo que, naquelas paragens, não se fazia acompanhar de um pau da sua altura, para se defender em situações menos fáceis. Nos anos 30 passou a ser perseguido pelas autoridades policiais, que proibiam o uso do pau nos recintos das feiras e, em consequência disso, «emigrou para o Sul, estreando-se sobretudo na Estremadura e no Ribatejo». A decadência manteve-se até que, há alguns anos, o número de praticantes começou a aumentar pelos dedos. Da acção de alguns praticantes desde há três anos, ressurgiu em todo o País o interesse pela modalidade e, hoje, de acordo com Nuno Russo, as escolas, tanto no Norte como no Sul, têm registado aumento de praticantes. Actualmente, o número de jogadores eleva-se já às centenas. Paralelamente, criou raízes para que se comecem a criar laços de competições, o que irá ainda mais aumentar o interesse pela prática deste desporto. Os jogadores de pau contam já com o apoio da Direcção-Geral dos Desportos, mas falta ainda o aval do Ginásio Clube Português, instituição com grande responsabilidade na modalidade pelo contributo que tem dado à sua manutenção em Lisboa. Texto: Nuno Cunha |
Ver também
- Notícia do início da formação na Revista da ARMADA, nº 155, Agosto 1984
- Notícia de uma demonstação de Bandeira na Revista da ARMADA, nº 168 de Setembro de 1985
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