Artigo: Jogo do pau regressa como desporto
Sobre
- Relevância: ★★★
- Título: Jogo do pau regressa como desporto
- Autor José Domingos/Lusa
- Publicação: Diário de Lisboa, 28 agosto 1990
Resumo
O artigo apresenta o Jogo do Pau como uma arte de combate tradicional portuguesa, nascida entre as classes populares como alternativa às armas nobres. O varapau, instrumento simples e acessível, permitiu o desenvolvimento de uma esgrima própria, técnica e eficaz, transmitida de forma prática entre mestres e discípulos. A prática é enquadrada num contexto mais amplo, com paralelos noutras culturas onde instrumentos agrícolas deram origem a sistemas de combate.
Do ponto de vista histórico e cultural, o texto sublinha que o Jogo do Pau não era uma prática rudimentar, mas sim uma arte estruturada, com técnicas de ataque e defesa bem definidas. São evocadas referências literárias e etnográficas, como Ernesto Veiga de Oliveira, Camilo Castelo Branco e Aquilino Ribeiro, que preservaram na memória escrita figuras e episódios marcantes associados a jogadores de pau, reforçando o seu valor simbólico e identitário.
Por fim, a notícia destaca o declínio desta prática com a modernização e o aparecimento de armas de fogo, mas evidencia também o seu ressurgimento contemporâneo como desporto e expressão cultural. Associações e escolas têm promovido o ensino e a divulgação da modalidade, agora praticada por homens e mulheres de diferentes origens, contribuindo para a preservação de um importante património imaterial português.
Artigo
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Arma do povo com grandes tradições Um simples pau foi, durante séculos, a arma de eleição dos que não eram armados com sabres ou espadas. O camponês ou o pastor aperfeiçoou a sua própria esgrima — o jogo do pau — que renasce hoje como desporto para ganhar adeptos. Actualmente, em Portugal, o jogo do pau está a ser recuperado por algumas instituições culturais, nomeadamente a Associação dos Jogos Tradicionais da Guarda, que organizou entre 10 e 20 de Agosto, em Figueira de Castelo Rodrigo, o Encontro Nacional do Jogo do Pau. Desde tempos remotos, que na maior parte dos países da Europa, incluindo Portugal, e mesmo no Extremo Oriente, como Índia, China, Japão, Tailândia, Vietname e Afeganistão, o uso das armas brancas era inerente às classes populares. O etnólogo Louza Henriques, referindo-se ao caso português, afirma que «só o filho de algo, só o donatário ou o senhor podia usar armas, fossem elas espadas, floretes ou outras de lâmina». «O povo desenvolveu uma arma muito simples — um pau, com o qual era capaz de fazer uma esgrima tão bem elaborada que, duvido que alguém com espada lhe conseguisse chegar ao pêlo», acrescenta. Também no Oriente era vedado o uso do sabre aos plebeus, esclareceu um especialista de artes marciais, Pedro Choi. Entende que a criação de alternativas de defesa pelo homem rural quer na China quer no Japão se deve sempre a um permanente conflito de interesses económico-sociais. Assim, por exemplo, o «nunchaku», conhecido em Portugal pela designação de «matracas», não é mais do que a adaptação de uma alfaia agrícola, o mangual do arroz, muito utilizado na antiga China. Os lavradores chineses, frequentemente atacados e assaltados por malfeitores bem armados de sabre e faca, viram os seus haveres destruídos e, perante a precariedade das defesas de que dispunham, explica aquele instrutor de «Karaté». À semelhança do «nunchaku», o pau chinês, nascido como arma auxiliar da luta com as pernas, existindo ainda o pau japonês, o «boken», que, sendo inicialmente um mero substituto dos sabres dos samurais, do qual herdou a forma, veio tornar-se uma arma de impacto tão eficaz como aquele, diz Pedro Choi. Por outro lado, segundo Louza Henriques, o jogo do pau português também não era uma coisa ingénua, como quem malha numa eira. Era uma arte elaborada, com passos, estilos, paradas de defesa e de ataque. Inventar os jogadores Na sua opinião, nunca foram devidamente estudados nem inventariados os jogadores do pau, que deixaram a sua memória quase dispersa, como se fala hoje de um futebolista ou de um bom corredor. Por seu turno, o investigador Ernesto Veiga de Oliveira, no livro «Festividades Cíclicas em Portugal», lembra que a tradição oral não esqueceu gestas destas proezas, nomeadamente figuras de jogadores de pau famosos, ora de uma ferocidade assassina, ora paladinos de uma nobreza de sentimentos igual à sua bravura. Em Novelas do Minho, Camilo Castelo Branco faz referência a um «homem valente como as armas», João Couto, da Samardã, que por volta de 1820 jogava de tal jeito que em romaria onde fosse, as baionetas dos soldados voavam das espingardas. João Couto, que matara dois homens a pau e faca, «saltava por cima de um homem e ficava em guarda com o pau atravessado», sendo costume gabar-se de ter espalhado com a ponta do pau rumores a esmo. Ao narrar a história da figura do «Malhadinhas», Aquilino Ribeiro descreve o seu jogo cerrado e curto contra a fanfarra de Santa Eulália, e não deixa de sublinhar a arte do mestre que o ensinou, o Chino Pedreiro, de Ermesinde, que seria capaz de parar com o pau as pedradas que dois homens lhe atiravam. Para Veiga de Oliveira, o desaparecimento do jogo do pau representa não só a perda de uma técnica de combate «extremamente original e adequada», mas ainda o que resta desse «clima heróico e másculo, que ele ajudara a modelar, numa sociedade já totalmente domesticada». Mas os actuais jogadores, que aprendem em estabelecimentos muito semelhantes, as escolas de «karaté» que proliferam hoje no país, já não são apenas homens. Há também mulheres interessadas na prática da modalidade, e raramente são pessoas do campo a querer redescobrir a valentia dos seus avós. Um dirigente da Associação de Jogos Tradicionais da Guarda, praticante do jogo do pau, Pires Veiga, disse que dos 60 praticantes distribuídos pelas três escolas da região, provenientes de profissões diversas, muitos são mulheres e a maioria deles tem idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos. Aquela associação, em conjunto com o grupo «Amigos do jogo», tem divulgado e ensinado o jogo do pau no distrito da Guarda, através das três escolas que possui nesta cidade, em Seia e em Gouveia. No Encontro Nacional do Jogo do Pau participaram jogadores das regiões da Guarda, Minho, Ribatejo e Estremadura, que demonstraram as técnicas das escolas de origem e realizaram sessões de animação nas feiras e romarias da zona. Relação com as estruturas tradicionais De acordo com Veiga de Oliveira, o «jogo-combate», característico do Norte de Portugal, relaciona-se com as estruturas tradicionais da vida e da sociedade camponesa e corresponde ao período clássico e heróico deste tipo de vida, em que as comunidades viviam fechadas nos seus valores próprios. O pau pode manter-se, carvalho, castanho, ou mesmo junco ou idosa, elemento normal da indumentária do homem do campo, como apoio e como companhia transformou-se, com o rodar dos tempos, num meio preventivo e de defesa contra perigos reais ou potenciais, podendo servir tanto causas integradoras como causas desintegradoras. O jogo do pau e o «complexo religioso» em que se integra parecem resultar de profundas tendências do homem, em que a agressividade não se dissocia de um indissociável basilar, considerado o mesmo etnólogo. Presentemente, esta arte marcial está longe desses tempos de glória, quando os homens lutavam apenas com as armas que tinham à mão, fossem elas paus, pedras, alfaias agrícolas ou outras. O «jogo-combate» desapareceu das «Terras do Demo» mas, como o dessa gestação bárbara e forte de um Portugal que já morreu, que fala Aquilino, renasce hoje como desporto nas mesmas terras, para homens e mulheres de diferentes proveniências. As armas que o povo fez e que a natureza lhe proporcionou foram perdendo a sua capacidade de serviço, primeiro com a proliferação das armas brancas e, mais tarde, com o aparecimento das armas de fogo. Além do jogo do pau, vamos encontrar vestígios dessa maneira de o povo se armar, onde as coisas todas começaram por brincadeiras de miúdos, como o caso da funda de pastor, a mesma com que David matou o gigante Golias, no Médio Oriente, disse Louza Henriques. O imaginário popular está povoado de episódios mais ou menos lendários, cenas heróicas de homens e mulheres a lutar sozinhos contra exércitos inteiros, contra grupos mais numerosos ou adversários mais fortes. Ao longo da história, particularmente em épocas de crise, estas imagens têm servido de alimento precioso à consciência nacional e ao sentimento patriótico. Uma padeira portuguesa, de Aljubarrota, teria desbaratado com a sua pá, durante a batalha de 1383-1385, sete castelhanos que se tinham refugiado no forno de cozer o pão e a célebre Maria da Fonte, essa mulher do Minho que de foice fez espada, em plena época liberal, constitui o tema de um hino, ainda hoje entoado com igual fervor por monárquicos e radicais de esquerda. Desde o século XIX que o jogo do pau, a que chamam «esgrima nacional», é praticado no Sul — Lisboa e Ribatejo, fundamentalmente — num estilo mais aberto e viril, tanto causas integradoras como causas desintegradoras. Como variante deste jogo-desporto, apontam-se o fandango de varapaus, dança popular da Lezíria em que dois campinos se defrontam, simulando um combate em que a bravura ao ritmo da música. O próprio rei D. Carlos foi um grande jogador de pau, tendo tido por mestre João Maria de Oliveira, «o Saloio», nascido na capital em 1805, e apontado como tendo sido o fundador da «escola de Lisboa». Esta esgrima, que sobrevive ainda no Oriente e quase desapareceu no Ocidente, recebeu em Portugal características de modo especial, sobretudo no Norte e Centro, até à Galiza, acentua Louza Henriques. Instituições como a Associação de Jogos Tradicionais da Guarda mergulham a fundo na alma de uma Nação valente e fazem da tradição popular portuguesa, mesmo quando no passado ela foi sinónimo de alguma violência, um instrumento necessário na formação das camadas jovens que já demonstraram o seu interesse por artes marciais de outras paragens. » |
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