Artigo: Justiça de Fafe 1986
Sobre
- Relevância: ★☆☆
- Título: «Justiça de Fafe» : um monumento contorverso
- Publicação: Diário de Lisboa nº 22114 : ano 66 de 18 julho de 1986, p.14
Resumo
A notícia relata a origem e o significado da expressão “Justiça de Fafe”, associada a um episódio do século XIX em que o deputado fafense António Augusto Ferreira de Melo e Carvalho terá resolvido um conflito não com espada ou pistola, mas com um pau de marmeleiro, desancando um adversário. Daí nasceu a ideia de que, em Fafe, a justiça se fazia “à paulada”, expressão que perdurou na cultura popular e identidade local.
O texto percorre depois a memória dessa tradição na cidade, destacando a estátua “Justiça de Fafe” (inaugurada em 1981 junto ao tribunal), que simboliza essa forma de resolução de conflitos, embora tenha gerado controvérsia. Recorda também episódios caricatos ligados a essa fama, como um juiz que se defendeu com a “vara da justiça” num ataque em plena audiência, e figuras populares como o “Paredes”, personagem típica da cidade. Conclui-se que, apesar da persistência simbólica e cultural, essa prática violenta pertence ao passado, mantendo-se sobretudo como elemento identitário e folclórico dos fafenses.
Artigo
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« “Justiça de Fafe” — Quando o ilustre deputado de Fafe escolheu as armas. deixou de parte a espada e a pistola. preferiu um bom pau de marmeleiro e acabou por desancar o arrogante colega lisboeta. A história aconteceu no século passado. o deputado fafense às Cortes chamava-se António Augusto Ferreira de Melo e Carvalho e assim terá nascido a expressão «a justiça de Fafe». quer dizer. «nada melhor que um bom pau de marmeleiro para se dizer de sua justiça». Ainda hoje existem em Fafe alguns grupos de «jogo do pau» e a estátua mais conhecida da cidade chama-se «Justiça de Fafe». foi inaugurada em 1981. e mostra um homem (de Fafe, com certeza) de pau alongado a dar uma bordoada num senhor mais nutrido (possivelmente forasteiro). Quando a estátua foi inaugurada, junto ao Palácio da Justiça de Fafe, o principal magistrado da localidade insurgiu-se. À própria mãe do actual presidente da Câmara Municipal. Dona Miquelina Summavielle, considera que não foi de muito bom tom construir-se tal estátua daquela maneira. Mas a estátua está lá e sabe-se que os fafênses já não resolvem (sempre) os seus problemas à paulada. embora mantenham a fama de valentes e destemidos. Longe vão os tempos em que o tio do presidente da Câmara Municipal. magistrado em Fafe, se viu aflito com o ataque repentino de um conterrâneo que julgava na altura. O homem, do clã dos «Felizardos», pegou numa cadeira da sala de audiências e atirou-a ao juiz. O juiz, também conhecedor da «Justiça de Fafe», não esteve com meias medidas: pegou na chamada «vara da justiça». que antigamente se mantinha junto à mesa dos magistrados. e tratou de se defender à paulada. A «vara da justiça» já não ormamenta as salas de audiência do Tribunal de Fafe e, desde então, as cadeiras estão cuidadosamente pregadas ao soalho. No gabinete do vereador José Manuel Domingos, um quadro na parede recorda também a justiça de Fafe: ali está retratado uma figura típica da cidade. o Paredes. de beata na boca e pau na mão. O Paredes. um pacífico fafense que faleceu há cerca de seis anos. era provavelmente uma das figuras mais conhecidas da cidade. amigo do seu copo e senhor de boa imaginação. O artista que pintou o Paredes para a posteridade é um ex-padre. Vítor Costa, que vive hoje no Porto. À sua vocação sacerdotal sobrepôs-se a vocação artística. quando o seu bispo o proibiu de frequentaf um curso de belas-artes. há uns anos atrás. Quanto ao Paredes, muitos fafenses se recordam de quando ocupou. para viver, um ex-prostíbulo da povoação. Ignorantes, da debandada das senhoras, muito bom homem acordava fora de horas o pacífico Paredes, em busca de prazeres proibidos. Descontente, e senhor da sua privacidade, o Paredes escreveu em grandes letras na porta da sua nova casa: «Aqui só mora o Paredes». » |
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