Doc: 1875-1975 Um Século de Jogo do Pau no Ginásio Clube Português
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- Relevância: ★★★
- Título: 1875-1975 : Um Século de Jogo do Pau no Ginásio Clube Português e no Coliseu dos Recreios
- Autor: Paulo Lopes
- Publicação: Núcleo de Estudo e Investigação do Jogo do Pau Português da Stafffighters, janeiro 2025
- DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.18272270
Antes do advento do cinema, da televisão e do futebol, os saraus eram uma das principais formas de entretenimento e reuniam públicos diversos em grandes eventos culturais e desportivos. A história das exibições de Jogo do Pau no Ginásio Clube Português reflete a continuidade e valorização desta arte marcial tradicional portuguesa ao longo de mais de um século. Desde os primeiros saraus realizados na grandiosa sala do Coliseu dos Recreios, que atraíam uma vasta gama de espectadores – desde autênticos aristocratas e a alta e média burguesia até a gente do povo –, o Jogo do Pau destacou-se como uma prática de grande importância cultural e desportiva. Esses eventos eram presididos pela Família Real e, posteriormente, pelo Presidente da República, sendo transmitidos ao vivo pela RTP, o que os tornava verdadeiros acontecimentos citadinos.
Mestres renomados, como Carlos Relvas, Artur dos Santos, Frederico Hopffer, Pedro Ferreira, Abel Couto, entre outros, desempenharam um papel fundamental na preservação e elevação da tradição. Além dos saraus regulares do Ginásio Clube Português, outros ginásios da época, como o Lisboa Ginásio Clube e o Ateneu Comercial de Lisboa, também promoveram eventos que contribuíram para a popularização do Jogo do Pau. A imprensa, tanto desportiva quanto generalista, acompanhava esses eventos com análises críticas e comentários. Com o tempo, a televisão deixou de transmitir os eventos ao vivo, mas continuou a incluir imagens nos noticiários. No entanto, à medida que as preferências culturais e desportivas evoluíram, os saraus de ginástica, que outrora atraíam grande atenção, passaram a perder o interesse da imprensa, refletindo mudanças nas prioridades e no foco das coberturas mediáticas.
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O Jogo do Pau em Lisboa
O Jogo do Pau constitui uma expressão marcante do património cultural português, caracterizando-se como uma arte marcial que utiliza um bastão longo e flexível, denominado “pau” ou “varapau”. Este sistema de combate possui raízes históricas que remontam ao século XVI, com particular relevância na região do Minho, embora haja documentação histórica que comprove a sua prática em várias partes do território nacional e insular desde o início do século XIX.
Inicialmente, o Jogo do Pau desempenhava uma função pragmática como técnica de combate nas comunidades rurais, servindo como instrumento de defesa pessoal e segurança comunitária nas aldeias. No entanto, já em 1816, encontram-se referências ao seu ensino[1] e à sua prática estruturada em Lisboa, onde começou a ser ensinado por mestres em “quintais” e espaços operários. Estes locais eram frequentados maioritariamente por trabalhadores e migrantes oriundos de regiões do Norte, como Trás-os-Montes e Minho.
Um desses mestres foi José Maria Silveira (1800-1883), conhecido como “o Saloio". Este mestre desempenhou um papel fundamental na regulamentação e na definição da identidade do Jogo do Pau, ao disciplinar os princípios das diferentes escolas. Transformou, assim, o que antes era apenas uma forma de combate num verdadeiro desporto
Em 1889, o Jogo do Pau começou a despertar interesse entre alguns sócios do recém-aberto Ginásio Clube Português. Após vários debates na direção, e apesar de enfrentar alguma oposição, foi iniciada a 1ª classe de Jogo do Pau , dirigida pelo discípulo do “Saloio”, o mestre Pedro Augusto da Silva (1833-1897), assistido pelo professor Custódio Magalhães. Mais tarde, chegou ao Ateneu Comercial de Lisboa e ao Lisboa Ginásio Clube, sendo assim incorporado como modalidade desportiva, muito apreciada como segunda modalidade por vários praticantes de ginástica. Neste contexto, o Jogo do Pau foi adaptado a uma técnica mais mista, com a esgrima de sabre e de florete, que era fluente na época, sendo assim bem aceite por burgueses, fidalgos e «sportsmen». O formato de combate que existia no Norte passou a ser uma modalidade de esgrima
Segundo o Ginásio Clube Português, «o Club foi o 1º que fez do jogo do pau, jogo de salão.».
Com o crescimento desta nova modalidade desportiva na capital, dezenas de escolas proliferaram até meados do século XX, tendo o Jogo do Pau lugar obrigatório em todas as festas e saraus desportivos da época.
Vamos mais à frente, explorar a história do Jogo do Pau, destacando os eventos marcantes que ocorreram no Coliseu dos Recreios, um dos maiores palcos de exibição desta arte marcial em Lisboa, onde se realizaram importantes apresentações e demonstrações que ajudaram a consolidar a sua presença no cenário desportivo da cidade.
A História do Ginásio Clube Português em Saraus
O Desporto-Espectáculo no Coliseu dos Recreios de Lisboas
O Theatro Circo Price, inaugurado em 1860, desempenhou um papel central na transformação do panorama cultural e desportivo de Lisboa, ocupando o espaço anteriormente destinado à primeira praça de touros da cidade. Esta iniciativa foi conduzida por Thomas Price, um empresário inglês que introduziu um grupo de ginastas e acrobatas estrangeiros, cuja mestria técnica e destreza física conquistaram rapidamente a juventude lisboeta.[2]
Inicialmente concebido para acolher espetáculos de circo e apresentações de ginástica, o Circo Price não só democratizou estas formas de entretenimento, mas também impulsionou a valorização da prática física e do desporto em Portugal. Este impacto catalisador incentivou, anos mais tarde, um grupo de entusiastas da ginástica a fundar o Ginásio Clube Português, em 18 de março de 1875. Esta instituição viria a consolidar-se como uma referência no fomento da cultura física e desportiva a nível nacional.
Sabe-se que o mestre José Maria Silveira realizou uma exibição de Jogo do Pau no Circo Price durante uma festa de caridade[3]. Além disso, o primeiro sarau do Ginásio Clube Português teve lugar em 1876, no mesmo espaço, com fins beneméritos em favor das vítimas das inundações que tinham assolado o país, marcando o início de uma tradição de galas desportivas que, mais tarde, se tornariam o ponto alto das atividades anuais do clube.
Contudo, a hipoteca do edifício do Circo Price em 1875, seguida da sua demolição em 1879 para a construção da Avenida da Liberdade, resultou na perda de um dos espaços culturais mais emblemáticos da capital. Este vazio foi parcialmente colmatado com a inauguração do Coliseu dos Recreios, a 14 de agosto de 1890, que assumiu um papel de continuidade na promoção de eventos culturais e desportivos em Lisboa.
Cronologia de eventos no Coliseu dos Recreios de Lisboa
Chama-se a atenção para o facto de não estarem listados todos os eventos desportivos realizados no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, dado que tais atividades eram realizadas anualmente. Optou-se por apresentar apenas os eventos de maior relevância, que alcançaram maior visibilidade nos meios de comunicação social da época.
1891. A 17 de dezembro, teve lugar no Coliseu dos Recreios o primeiro assalto de Jogo do Pau, protagonizado pelo fidalgo Carlos Relvas, marcando um momento pioneiro na apresentação pública desta arte.
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«Real Gynnasio Club Portuguez (...) Finalmente a ultima festa é um grande sarau no Colyseu dos Recreios, para o qual está designado o dia 17 de dezembro. Compôr-se-ha de gymnastica, esgrima e equitação; e, segundo nos informam, exhibe se pela primeira vez um assalto de esgrima de pau, em que toma parte o sr. Carlos Relvas, e um assalto de esgrima de sabre a cavallo. Sabemos que além do sr. Carlos Relvas tomam parte na festa os sra. Antonio Martins, João Ferro, Gagliardi, João Possollo, Custodio Galvão, Arthur Leopoldo Xavier Pessoa, e outros. O nosso parabens à direcção.»
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Carlos Relvas, Fidalgo da Casa Real e comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, destacou-se como uma das personalidades mais marcantes do seu tempo em Portugal. Reconhecido pela sua elegância e destreza, destacou-se em diversas atividades desportivas, incluindo equitação, touradas amadoras, tiro com pistola e carabina, e práticas de combate como o Jogo do Pau, o florete e o sabre.
Relvas foi também um promotor ativo do desporto, tendo fundado na Golegã a Sociedade dos Amadores do Jogo do Pau. Nesta iniciativa, reuniu alguns dos mais proeminentes mestres da época, como José Maria da Silveira, Joaquim Baú, António Penela e José Florêncio, entre outros, convidando-os para as suas propriedades com o intuito de aperfeiçoar as suas técnicas. Este esforço consolidou a sua reputação como um jogador exímio e uma figura de relevo na preservação e desenvolvimento do Jogo do Pau. (saiba mais)
1892. A 14 de janeiro, os espetáculos de circo foram suspensos para dar lugar a um sarau desportivo promovido pelo Real Ginásio Clube, no qual se destacaram apresentações de ginástica, esgrima de florete e sabre, e Jogo do Pau. Segundo o Commercio de Portugal, nesse dia realizava-se «o espectaculo tão anciosamente desejado pelos amadores que têm empenho em assistir repto do jogo do pau». Por sua vez, o «Correio da Manhã» registou:
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«Muito concorrido hontem o Colyseu novo. No intervallo rifou-se o cavalo que era oferecido ao publico - um cavalo de menos da marca - russo escuro, nos pareceu. Coube ao n. 645. Na segunda parte houve jogo de pau. Eram quatro os jogadores que se apresentaram com os pittorescos fatos que usam os campinos - collete encarnado, calção e meia, barrete e sapatos de prateleira. O que se mostrou mais habil foi Gonçalves Dias, um rapagão alto, moreno, muito desembaraçado. Ao espectaculo assistiram El-Rei, a srª D. Amelia e o sr. Infante.
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O "rapagão alto, moreno e muito desembaraçado", mencionado no artigo, corresponde a José Gonçalves Dias, apelidado "o 95". Este foi um dos discípulos mais destacados e contra-mestre do renomado mestre lisboeta Domingos Salreu, que, por sua vez, havia sido formado pelo já citado José Maria da Silveira. 1893. A 5 de novembro, é apresentada uma «”troupe” portuguesa, que vai a Chicago mostrar os nossos costumes e diversões, como toques de guitarra, fandango saloio e jogo de pau (…)»
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«(…) apresenta-se no Coliseu dos Recreios, ás Portas de Santo Antão, no sábado próximo, 5 do corrente. A rapariga que baila o fandango é de Pataias, de onde é também um dos mestres do jogo de pau, o celebre Joaquim Agostinho. Dizem-nos, porém, que Gonçalves Dias, mestre do jogo do pau pelo sistema de Lisboa, é uma verdadeira maravilha. É espetáculo que muito deve entusiasmar o publico.
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Em 9 de dezembro do mesmo ano, o Real Ginásio Clube organizou mais um sarau, desta vez com a presença da família real. Este evento marcou o início das primeiras corridas de velocidade em pista, conforme reportado pelos meios de comunicação da época:
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«(...) realizou-se ante-hontem no Coliseu dos Recreios, o sarau promovido pelo Real Gymnasio Club. (...) seguiu-se o jôgo do pau pelos srs. Abeillard de Vasconcellos e A. Gomes, sendo ambos muito muito appaudidos.
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Neste dia, também ocorreu a primeira apresentação no Coliseu do «jogo do soco, novidade que agradou bastante» Jornal “O século”, de 10 de dezembro de 1893 (ver mais). Este «jogo do soco» viria a ser mais tarde reconhecido como «pugilismo», atualmente popularmente conhecido como boxe. Na época, o termo «jogo» era utilizado para se referir a qualquer forma de luta ou combate, o que explica a origem do nome «jogo do pau».
1894. A 15 de novembro, deu-se início à nova temporada, com a apresentação de uma «Companhia Equestre, Ginástica e Cómica», dirigida por Alessandro Moretti. A estreia foi marcada por cenas de pugilato e de confrontos com bengalas (bengaladas) entre espectadores da plateia, o que levou à intervenção da polícia. A causa destes distúrbios permanece desconhecida.
Nesta altura, todo o homem elegante usava chapéu e bengala. Aqui a bengala seria em muitos casos a sua arma de autodefesa, nascendo um pouco por toda a europa várias técnicas de defesa e combate nesta vertente, como o Bartitsu na Inglaterra e o Le jeu de La Canne em França. Em Portugal, seria a técnica já existente do Jogo do Pau Português.
Vários espetáculos artísticos e atléticos dedicados ao «Jogo de Bengala» foram apresentados em saraus, festas e salões. Um exemplo disso pode ser observado no cartaz de espetáculo datado de 2 de junho de 1895:
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«REAL COLYSEU DE LISBOA, Domingo 2 de junho de 1893 (...) JOGO DE BENGALA pelos Ex.mos Srs. Eduardo de Sousa e Valentim Piato (...) JOGO DE PAU, DUPLO TRAPEZIO, ARGOLAS, TORNIQUETE pelos Ex.mos Srs. Domingos Valente, Manuel Igrejas. (...)»
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1895. A 15 de junho, é anunciado na comunicação social:
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«COLYSEU DOS RECREIOS - 8 H. - Sarau pelo Real Gymnasio Club Portuguez. (...) Jogo de pau pelos ex.mos srs. A. Santos e A. Gomes
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1896. Este ano ficou marcado pelas primeiras projeções cinematográficas realizadas no Coliseu, ainda numa fase embrionária da sétima arte. A exibição de filmes, uma nova forma de entretenimento, rapidamente conquistaria um lugar central na programação do Coliseu dos Recreios.
O operador cinematográfico inglês Henry William Short, que trabalhava para Robert Paul, foi enviado a Espanha e Portugal em uma tournée de 5 semanas com o intuito de filmar eventos e assuntos locais. Os negativos de Short, filmados com uma câmara desenvolvida por Robert Paul, eram enviados para Inglaterra para a sua cópia e revelação. Contudo, Edwin Rousby obteve cópias desses negativos, exibindo-os no Real Coliseu de Lisboa a 14 de outubro de 1896, antes de sua apresentação no Alhambra de Londres. No total, Rousby realizou mais de 200 sessões e apresentou mais de 100 filmes, incluindo uma dúzia de produções filmadas em Lisboa, nas quais se destacam os desportos nacionais, como a tourada e o Jogo do Pau. Entre os filmes filmados, o mais célebre foi «Sea Cave Near Lisbon», rodado na Boca do Inferno, em Cascais.
O filme relacionado com o Jogo do Pau terá sido filmado no Retiro da Pipa, localizado no topo da Avenida da Liberdade. Os jogadores Domingos Henriques de Sousa Santos e Ambrósio Blanco participaram nesta exibição. É possível que estes atletas tenham sido discípulos do Mestre Domingos Salreu, pois ele lecionava no Retiro da Pipa, situado na Quinta da Torrinha (atualmente Parque Eduardo VII e Praça Marquês de Pombal)[4].
A sua atuação no filme, que pode ter sido uma representação encenada, confere-lhes, assim, o estatuto de primeiros atores portugueses da história do cinema.
1897. Neste ano, realizaram-se saraus no Coliseu dos Recreios com exibições de Jogo do Pau, nos dias 1 de fevereiro e 31 de dezembro, sendo este último prestigiado pela presença da Família Real e de Mousinho de Albuquerque.
A 30 de novembro, Pedro Augusto da Silva, mestre responsável pelo ensino no Ginásio Clube Português, faleceu aos 64 anos, vítima de uma pneumonia dupla. O ensino foi então confiado ao seu discípulo, Artur dos Santos, de apenas 23 anos.
A 21 de dezembro desse mesmo ano, ocorreu o Sarau de Gala do Ginásio Clube Português, que contou com a presença de Sua Majestade e das Altezas.
1898. A 9 de julho, teve lugar um festival em prol do Instituto D. Afonso, que incluiu apresentações de ginástica, equitação, esgrima, salto com vara, Jogo do Pau, canto e representação, além de uma performance musical pela Banda de Infantaria 7, sob a direção do maestro Taborda.
1899. A 19 de dezembro, realizou-se um novo sarau promovido pelo Ginásio Clube Português no Coliseu dos Recreios, no qual, na segunda parte, foi apresentada uma exibição de Jogo do Pau pelos Exmos. Srs. Arnaldo Ressano Garcia e Júlio de Moura Pinheiro Júnior. Estes assaltos foram executados de excessiva violência que levantou ao rubro, a assistência.[5]
1900. A 4 de dezembro, realizou-se um novo sarau, que, segundo um cartaz da época, contou na primeira parte com «os noveis jogadores Vasco C. Infante Câmara e Luiz C. Infante Câmara»[6], e na segunda parte com a participação de João de Moura Pinheiro e Arnaldo Ressano Garcia. No dia 19 do mesmo mês, os jovens Infante da Câmara voltaram a fazer nova exibição no Coliseu.
Arnaldo Cardoso Ressano Garcia (1880-1947) foi Coronel de Engenharia, agraciado com os graus de Comendador e Grande-Oficial em 1942. Foi docente em instituições como a Escola do Exército, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, além de dirigente da Sociedade Nacional de Belas Artes. Lecionou Astronomia, Geodesia e Topografia no curso de Engenharia Militar, tendo também trabalhado como artista plástico e caricaturista. (ver mais)
1901. A 15 de janeiro, a convite do Infante D. Afonso, os dois jovens Infante da Câmara, com idades entre 10 e 11 anos, realizaram uma nova exibição em benefício do Instituto D. Afonso. Discípulos de Artur dos Santos, estes jovens eram filhos de Nuno Infante da Câmara, um abastado proprietário ribatejano e também jogador de pau, que, na época, residia em Vale Figueira, no Cartaxo.
A 10 de dezembro, teve lugar o sarau anual do Real Ginásio Clube Português, que incluiu apresentações de ginástica, voos, esgrima, tiro ao alvo, equitação e jogo do pau, com um assalto de Joaquim José Cardoso e Dário Cannas. Segundo uma publicação do Ginásio Clube Português, Cannas teria vencido, nesse ano, as provas finais de Ginástica Elementar, Ginástica Aplicada, Esgrima e Jogo do Pau.
Dário Cannas (1884-1966), aluno de Mestre Artur dos Santos, foi um destacado atirador português e professor de Tiro ao Alvo no Ginásio Clube Português. Tornou-se, aos 18 anos, o primeiro civil a obter o diploma de atirador de 1.ª classe, em 1902. Em 1907, enquanto professor-ajudante de Ginástica das classes infantis, iniciou a instrução em Tiro ao Alvo para os seus alunos. No Ginásio Clube Português foi eleito sócio técnico em 1915, e sócio Honorário em 1946. Foi várias vezes vice-presidente da Assembleia Geral e presidente do Conselho Técnico. Representou Portugal em competições internacionais, participando nos Jogos Olímpicos de Verão de 1920 (Bélgica) e 1924 (Paris). Condecorado com o oficialato da Ordem Militar de Cristo, a Águia Imperial Alemã de 2ª classe e a Águia Alemã Olímpica.
1903. Em um folheto de divulgação de um sarau promovido pelo Ginásio Clube Português no Coliseu dos Recreios, a 8 de março, pode ler-se:
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«Grandioso SARAU Gymnastica, Esgrima, Equitação, Athletica, Jogo de pau e tiro ao alvo no COLYSEU dos RECREIOS.
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A 9 de dezembro, realizou-se o tradicional sarau promovido pelo Real Ginásio Clube Português, que contou com a presença da Rainha Dona Amélia e incluiu apresentações de ginástica, esgrima, Jogo do Pau, ciclismo e forças combinadas.
1904. Realizou-se um sarau beneficente em favor dos famintos de Cabo Verde, no qual o Rei D. Carlos assistiu ao Sarau de Gala do Real Ginásio Clube.
Rei D. Carlos, foi também um desportista de reconhecidos méritos, justamente considerado o primeiro sportsman português e também por ter sido o primeiro responsável pela introdução do Movimento Olímpico em Portugal. Segundo o mestre António Nunes Caçador, teria recebido lições de Jogo do Pau do mestre José Maria Silveira (“O saloio”). ([mais])
1907. A 26 de março, durante um sarau promovido pelo Infante D. Afonso no Coliseu dos Recreios, Arnaldo Ressano Garcia, com 27 anos na altura, participou num memorável assalto de Jogo do Pau contra João de Moura Pinheiro. O que começou como uma exibição tradicional evoluiu para um combate intenso, no qual os dois contendores, imbuídos pela emoção do momento, jogaram "a sério", demonstrando grande destreza e vigor.
O público, em grande entusiasmo, aplaudiu de pé, mas a luta prolongou-se tanto que foi necessária a intervenção da autoridade policial para interromper o confronto. O Infante D. Afonso convidou ambos os atletas à tribuna para os felicitar pessoalmente, juntamente com o mestre Artur dos Santos, responsável pelo seu treino.
1909. A 4 de fevereiro, realizou-se um sarau beneficente em apoio aos sobreviventes dos devastadores sismos no sul de Itália. O programa incluiu apresentações dos atletas da Escola Académica e do Real Ginásio Clube, com demonstrações de jiu-jítsu, voos em trapézio, argolas, forças combinadas, ginástica feminina e Jogo do Pau.
A 30 de março, realizou-se o tradicional sarau anual do Ginásio Clube Português:
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«Com a assistencia de El-Rei, Infante D. Affonso e numerososa concorrencia de espectadores, realizaou-se no dia 30 de março a festa que a prestante aggremiação de educação physica promove annualmente no Colyseu dos Recreios. (...) Foi o seguinte programa: (...) Jogo de Pau: pelos srs. D. José Perdigão e Francisco Costa. Deve a estas horas estar satisfeita a direcção do Club e os seus associados pelo exito do sarau, que foi uma prova da vivalidade do R.G.C.P., demonstrando o que aqui dissemos no numero anterior, a proposito do seu 34.º aniversário.
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A 9 de junho do mesmo ano, realizou-se um sarau organizado pelos atletas do Real Ginásio Clube e do Ateneu Comercial. O evento incluiu combates de luta livre, greco-romana e jiu-jitsu, halterofilismo, voos à Leotard, forças combinadas, volteio, exercícios em barra fixa, esgrima e Jogo do Pau, contando com a participação dos jogadores Francisco Costa e D. José Perdigão.
1916. No dia 19 de abril, realizou-se «o sarau dado pelo Gimnasio Club em favor da Cruzada das Mulheres Portuguezas.»
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«Entre os amadores que desempenham o interessante programma, figuram os srs. Humberto Reis e Silva Diaz, que num jogo de pau agilíssimo, de golpes vigororosos e de vista certeira, demonstrarão a protunidado como meio de defeza da grande esgrima nacional.
O seu professor, que é também o seu treinador, Sr. Arthur dos Santos, esmera-se na apresentação d'este numero que será dos mais vibrantes e incitadores.
A este benemérito espectaculo assiste o sr. presidente da República, ministros das nações alliadas o varias entidades officiaes.
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1917. A 11 de junho, teve lugar um sarau promovido pelo Ginásio Clube Português. Em setembro, o jornalista desportivo espanhol Manuel Nogareda, que assistiu à exibição coordenada pelo professor Artur dos Santos, descreveu-a da seguinte forma:
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«um homem de extraordinária fibra. Professor do Gymnasio Club Portuguez , da Escola Academica, do Sport Lisboa-Bemfica, do Jardim Collegio... criou um grupo de atletas capazes de representar Portugal em qualquer competição internacional. A verdadeira especialidade de Arthur dos Santos é a esgrima de pau, desporto genuinamente português, que dignificou, codificando-o, tirando-lhe toda a aparência de "jayania". Exímio professor da modalidade, tem conquistado vitórias marcantes, criando sua própria escola e tirando uma multidão de alunos que sabem homenagear o professor e garantir, com sua atuação brilhante, o sucesso desse esporte tantas vezes quanto realizam em público.
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Artur dos Santos, que assumiu a responsabilidade pelo ensino do Jogo do Pau no Ginásio Clube Português em 1897, em 1917, aos 43 anos, já lecionava esta arte em diversas instituições de prestígio, como a Escola Academica, o Colégio Militar e o Sport Lisboa-Benfica. Além disso, foi professor na Escola de Educação Física de Lisboa, onde contribuiu significativamente para a introdução e divulgação do desporto entre os jovens.
Artur dos Santos destacou-se não apenas pela sua competência técnica no Jogo do Pau, mas também pelo seu caráter disciplinado e pelo rigoroso método de ensino que aplicava. ([mais])
1920. A temporada de 1920-21 teve o seu início com um espetáculo realizado a 1 de novembro. Este evento desportivo foi dedicado a duzentos e cinquenta pescadores da Póvoa do Varzim, que haviam recentemente regressado do Brasil devido à falta de condições de trabalho no país. Durante o sarau, foram realizadas várias demonstrações, incluindo uma exibição do Jogo do Pau.
1921. A 1 de junho, foi realizado um sarau promovido pelos alunos do Colégio Militar, da Escola do Exército e dos Pupilos do Exército, que se apresentaram em esgrima, ginástica, Jogo do Pau e equitação, com o apoio de um orfeão e da Banda da GNR, sob a direção de Fernandes Fão. O evento teve como objetivo a angariação de fundos para a construção do monumento em homenagem aos mortos da Grande Guerra.
1922. A 11 de março, estreou-se a terceira companhia de circo nesta temporada, que, além de vários números artísticos, incluiu uma exibição de Jogo do Pau, apresentada por Lapa e Quinteiro. A companhia encerrou as suas apresentações a 10 de abril. No dia 22 de maio do mesmo ano, realizou-se o sarau do Lisboa Ginásio Clube, que incluiu demonstrações de luta livre e greco-romana, ginástica, esgrima, acrobacia e Jogo do Pau.
1923. Após 26 anos de ensino sob a orientação de Artur dos Santos, o ensino do Jogo do Pau no Ginásio Clube Português foi transferido para o Mestre Humberto Vieira Caldas (1888-1967), com a assistência do Mestre Cláudio de Oliveira.
Humberto Caldas foi um destacado atleta do Ginásio Clube Português, praticante de Jogo do Pau, boxe e luta greco-romana, que ajudou a revitalizar, tendo sido eleito presidente da Federação Portuguesa de Lutas Amadoras em 1954 e distinguido como Sócio de Mérito em 1985[7].
1924. Em 31 de maio, foi realizado um sarau promovido pelo «Comité» Olímpico Português, com o objetivo de angariar fundos para a deslocação dos atletas portugueses aos Jogos Olímpicos. O evento contou com a participação de esgrimistas (nas modalidades de espada e florete), atiradores (com pistola), jogadores de pau, halterofilistas e futebolistas da época.
Nesse mesmo ano, foi publicado o livro «Duas palavras sobre o jogo de pau», o primeiro em Portugal a abordar a técnica do Jogo do Pau. Com 165 páginas, trata-se de uma obra do mestre Frederico Hopffer, um dos mais respeitados mestres da Escola de Lisboa e atleta do Ginásio Clube Português.
Hopffer iniciou a sua prática com o amigo e mestre Artur dos Santos, no Ginásio Clube Português, e mais tarde aperfeiçoou-se sob a orientação de Domingos Salréu e do contramestre José Dias, conhecido como «o 95». Sempre dedicado ao aperfeiçoamento, Hopffer distinguia-se pela humildade em aprender com qualquer mestre ou jogador, independentemente do seu nível.
1925. Em 7 de janeiro, realizou-se um espetáculo em benefício das viúvas e órfãos dos bombeiros municipais. A primeira parte do evento incluiu uma variedade de apresentações, como pugilismo, esgrima, malabarismo, jogo do pau, halterofilismo e bailados artísticos.
1932. A 25 de junho faleceu o Mestre António Lapa, que nos últimos anos havia substituído Humberto Caldas. Lapa iniciou a sua prática de Jogo do Pau aos 26 anos no Largo da Achada, em Lisboa. Ao longo do tempo, destacou-se como mestre, lecionando em várias instituições de prestígio na capital, como o Lisboa Ginásio Clube, o Ginásio Clube Português e o Ateneu Comercial de Lisboa. .
Para suceder António Lapa, o ensino foi transferido para o Mestre Frederico Hopffer, que iniciou a sua prática há muitos anos com o amigo e mestre Artur dos Santos, no Ginásio Clube Português. Nos 15 anos seguintes, o ensino ficou a cargo deste mestre e dos seus três filhos: Frederico, Francisco e Júlio.
1942. No dia 29 de abril, realizou-se um sarau do Ginásio Clube Português, com um programa desportivo que incluiu voos à Codonas, esgrima, ginástica, luta, pugilismo e Jogo do Pau.
1948. Nesse ano, o Ginásio Clube Português ultrapassou o marco de mil praticantes. Contudo, o Jogo do Pau, já em declínio nessa época, contava apenas com 10 alunos.
1951. Neste ano, as aulas de Jogo do Pau foram retomadas pelo Mestre Humberto Vieira Caldas, agora com 63 anos. Paralelamente, continuava a lecionar aulas de luta greco-romana.
1953. Entre 1953 e 1958, não há registos de eventos relevantes na comunicação social. Sabe-se apenas que os saraus do Ginásio Clube Português eram frequentemente assistidos pelo Presidente da República, General Craveiro Lopes.
1960. O Sarau de Gala no Coliseu dos Recreios, realizado durante este período, foi presidido pelo Chefe de Estado, Almirante Américo Tomás, que viria a assumir a Presidência da República em 1958.
1962. No dia 10 de março, teve lugar o sarau anual do Lisboa Ginásio Clube. Em seguida, no dia 17 de março, o Ginásio Clube Português organizou um sarau de gala, presidido pelo Chefe de Estado, Almirante Américo Tomás, e filmado pela RTP. Este evento contou com várias exibições, incluindo os célebres assaltos entre os mestres Couto e Tabuada. (fotos)
1963. Entre os anos de 1963 e 1967, não há registos de eventos de destaque na comunicação social relacionados com os saraus do Ginásio Clube Português. No entanto, sabe-se que tais eventos continuaram a ser prestigiados pela presença do Presidente da República, Almirante Américo Tomás, o que reflete a continuidade do apoio institucional e o reconhecimento do valor cultural e desportivo do Ginásio Clube Português durante esse período.
1968. No dia 7 de fevereiro, a classe de Jogo do Pau participou, a convite da respetiva Comissão Organizadora, num sarau típico intitulado Noite do Ribatejo, realizado no Coliseu dos Recreios em benefício das vítimas das inundações que assolaram o concelho de Vila Franca de Xira. A atuação foi calorosamente recebida, com grandes aplausos e elogios, evidenciando o seu mérito e prestígio. Três meses depois, a 4 de maio, celebrou-se o 93.º aniversário do Ginásio Clube Português com um sarau comemorativo, filmado pela RTP e assistido pelo Chefe de Estado, Almirante Américo Tomás. O evento incluiu diversas exibições de Jogo do Pau, como assaltos e demonstrações de técnicas, destacando-se como um dos momentos mais marcantes da programação do clube. (ver filme do sarau)
1975. O Ginásio Clube Português comemorou o seu 100º aniversário com um grandioso programa, que incluiu um festival de homenagem organizado pelo Sporting Clube de Portugal e pelo Sport Lisboa e Benfica, com o patrocínio do Comité Olímpico Português. O evento, realizado no emblemático Coliseu dos Recreios, contou com diversas exibições de Jogo do Pau, incluindo a participação da equipa do Ateneu Comercial de Lisboa, liderada pelo mestre Pedro Ferreira. O festival foi registado pela RTP, assegurando uma ampla cobertura mediática e reforçando a visibilidade da modalidade.
Nessa data, o mestre e professor de Jogo do Pau no Ginásio Clube Português era Armando Sacadura, contando como Sócios Técnicos Francisco Frederico Hopffer, Manuel Tabuada Gonzalez e o Dr. Manuel Gomes Varela Fradinho. O número de alunos inscritos para as aulas de Jogo do Pau nesse ano era de 21.
Após 1975. As Galas do Ginásio Clube Português mudaram-se para o Pavilhão dos Desportos do Parque Eduardo VII (Pavilhão Carlos Lopes), mantendo a presença de membros do Governo. Posteriormente, o local das Galas foi transferido para a Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, e desde 2005, elas acontecem no Centro Cultural de Belém, continuando a ser um marco importante no panorama cultural e desportivo nacional.
Em 1976, o Mestre Nuno Russo, discípulo de Pedro Ferreira no Ateneu Comercial de Lisboa, assumiu o ensino do Jogo do Pau no Ginásio Clube Português. Numa entrevista de 2017, Mestre Nuno Russo contou como se deu a transição:
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« Uma vez o Mestre Couto aproximou-se de mim e disse que eu deveria conhecer o Mestre Sacadura e lutar com ele. Ele disse-me para manter isso em segredo, para escondê-lo do Mestre Ferreira. O Sacadura era um jogador poderoso, muito forte, tão forte que uma vez lutou com outro jogador enorme e os golpes das varas eram tão intensos que dava para ver faíscas. Fui até onde o Sacadura ensinava (Ginásio Clube Português) e disse-lhe que queria aprender com ele. Disse-lhe que já tinha praticado um tempo com o Mestre Ferreira, mas foi só isso. Claro que eu não revelei que a minha verdadeira intenção era lutar com ele. Todas as vezes que tinha a hipótese de lutar com ele, fazia exatamente o que o Mestre Ferreira costumava fazer quando jogava com ele, e isso, deixava-o louco. Dizia-me sempre que se eu insistisse em fazer as artimanhas do Ferreira, um dia abria-me a cabeça com um golpe. Um dia, estava eu já farto disso e quando estávamos a jogar, fiz a mesma técnica e acertei-lhe bem na articulação do joelho, que o fez desmaiar imediatamente, dei um segundo golpe na sua cabeça, mas, poupei-o e encurtei o ataque para acertar no seu peito. Claro que ele foi levado para o hospital, mas o mais engraçado é que, duas semanas depois, ele ligou-me e pediu para ir para a escola dele, porque achava-se velho demais (risos) [tinha 55 anos na altura]. Foi assim que me tornei o responsável da sua escola, que ainda sou.
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Mestre Nuno Russo continua, até hoje, como responsável pelo ensino de Jogo do Pau no Ginásio Clube Português. Mantendo a tradição da modalidade, implementou inovações pedagógicas, destacando a precisão das técnicas e a disciplina no ensino. Com a sua dedicação, conseguiu dar continuidade ao trabalho de seus predecessores, consolidando o Jogo do Pau no Ginásio Clube Português como uma das escolas mais respeitadas desta arte em Portugal.
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Ver também
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Referências
- ↑ Segundo Zacarias d'Aça, no jornal O Tiro Civil, de 1 de março de 1900, o Mestre Saloio, aos 16 anos (1816), já era considerado mestre e havia aprendido com dois mestres distintos em Lisboa (ver artigo)
- ↑ Restos de Colecção, “Theatro-Circo de Price”. Disponível em: https://restosdecoleccao.blogspot.com/2015/10/theatro-circo-de-price.html. Acesso em 28 de dezembro de 2024
- ↑ Livro: Feiras e outros divertimentos populares de Lisboa
- ↑ (ver mais)
- ↑ Momentos Históricos do GCP 1890-1899 in https://gcp.pt/momentos-historicos/1890-1899/. Consultado em 29 de dezembro 2024
- ↑ Artigo: O Real Gimnasio Clube Portuguez
- ↑ Portugal Wrestling. Galeria da Fama Presidentes. Acesso em 17 outubro 2025. https://www.portugal-wrestling.org/galeriadafama-presidentes