Livro: A Sibila
Sobre
- Relevância: ★☆☆
- Título: A Sibila
- Autor: Agustina Bessa-Luís (1922-2019)
- Publicação: Editora Nova Fronteira, 1954
A Sibila é um romance de Agustina Bessa-Luís publicado em 1954. O título remete para as figuras clássicas das sibilas, como a Delfos, a mais célebre de todas. No romance, a palavra indica a protagonista, a Quina. Este romance venceu o Prémio Delfim Guimarães e o Prémio Eça de Queiroz.
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O romance, A Sibila, descreve a trajetória da família Teixeira e da sua casa secular que caminha da decadência/ruína ao ressurgimento grandioso/triunfal. Situada no norte de Portugal, a casa de Vessada é o primeiro motivo para o registo de situações que acontecem tanto entre paredes, como nas redondezas da casa.
As situações vividas e descritas revelam gradativamente o sistema de valores que rege um universo fechado. Ao mesmo tempo deixam entrever a visão de mundo dos homens e mulheres que povoam esse universo, notoriamente a partir de uma força que emana do lado feminino: sob a gestão de mulheres fortes e destemidas, capazes de lutar para o reerguer do seu património. O saber mandar da mulher vai se revelando e efetivando-se após um incêndio da casa. [2]
Interpretação analítica
O artigo "Turismo Cultural - Património Literário Português do Jogo do Pau na oferta de novas experiências turísticas" dá-nos uma análise literária do Jogo do Pau português, reunindo um corpus de quatro romances que melhor retratam esta arte tradicional e o contexto sociocultural em que se desenvolveu. Através de uma abordagem analítica e interpretativa, o estudo procura identificar de que forma a literatura portuguesa representou o universo rural, as práticas de defesa e as expressões simbólicas associadas ao Jogo do Pau, evidenciando o seu valor enquanto património imaterial e elemento identitário da cultura popular.
Agustina Bessa Luís (1954) A Sibila; Romance; Guimarães Editores; 9ª edição.
Agustina Bessa-Luís foi uma das mais importantes escritoras da literatura portuguesa contemporânea. Nasceu em Vila Meã, Amarante, no dia 15 de outubro de 1922 e morreu no Porto, a 3 de junho de 2019. Além de escritora, foi ainda diretora do jornal O Primeiro de Janeiro, do Teatro Nacional D. Maria II e fez parte da Alta Autoridade para a Comunicação Social.
Publicado em 1954, A Sibila geograficamente remete-nos para um ambiente eminentemente rural, com todas as características do norte de Portugal, sendo que, pelo rigor da descrição da sociedade, da paisagem, da gastronomia e mesmo alguns topónimos usados, tudo leva a acreditar que a autora se inspirasse na sua terra natal.
As mulheres aparecem em duas vertentes: as que são lutadoras e determinadas e aquelas que se deixam enredar pelos homens apenas pela sua aparência e, claro, pela sua arte do manejo do pau. O romance inicia com a figura de Francisco Teixeira e um pedido de casamento a Maria. O casamento realiza-se após nove anos, continuando o noivo a ser um galã e a percorrer feiras, onde se evidenciava pela sua arte no jogo do pau (Luís, 1954).
“Conhecera Francisco Teixeira numa tarde de romaria que ela presenciava da sacada aberta sobre o largo da povoação em festa; Subitamente, um redemoinho de desordem ferveu, alastrando logo com o corricar de cachopos que se arrastavam sob as pernas do poviléu, e o escândalo ainda morno, ainda lento, das mulheres que reajustavam na nuca os lenços de algodão e buscavam no poial das portas um degrau seguro para abrigadamente presenciarem. Mas a luta embraveceu, magotes como vagas chocaram-se, confluindo das margens do largo; ouvia-se entre gritos o seco rumor dos paus que embatiam, estalavam, eram lançados longe, caindo sobre as tendas ou arraiais das louceiras. E, então, numa clareira que se foi desenhando mais vazia, mais circular, destacou-se o pequeno vulto de Francisco Teixeira, que avançava grave e tranquilo, repelindo à sua volta o eriçado dos marmeleiros que combatiam, iam cedendo, recuavam, dispersando nas alas da multidão que se agitava, ondulando como um corpo que voga na maré. Havia sangue.” (Luís, 1995, pp. 14-15)
“— Quem me interessa essa gente? — dizia. — A quem pode interessar o José do Telhado?” Maria fazia má cara, como sempre, a esta referência ao famoso quadrilheiro, outrora amigo íntimo e mestre de jogo do pau de Francisco Teixeira. (...) Tinham ambos conservado uma discreta amizade, um fundo de tolerância mútua, que se compreendia sem se comprometer.” (Luís, 1995, p. 27)
Todo o romance se desenrola no norte de Portugal, descrevendo bem um mundo campesino e fechado, onde homens e mulheres adquiriam forças díspares. Se, por um lado, o homem se impunha pela lei da força, a mulher demonstra uma capacidade de resiliência que lhe permitia a sobrevivência e mesmo a gestão da casa que, a caminho da falência, consegue reerguer através da sua astúcia para a administração quotidiana, na dura vida campesina, contra todas as vicissitudes a que estava sujeita, por um mundo dominado pela força dos homens.
Apresentar um breve corpus literário tornou-se interessante para que o nosso leitor, e eventual turista literário, tenha a verdadeira noção de quanto esta arte tinha impacto nas sociedades campesinas e como escritores de renome a conheciam e souberam retratar nos seus romances de forma tão realista.
Saliente-se que a escolha foi difícil, dado o elevado acervo de romances que retratam esta arte. A escolha recaiu em Miguel Torga, por transportar as pauladas bem longe do seu território de origem, vincando como a arte, depois de apreendida, fica no sangue de qualquer bom filho da terra; em Aquilino Ribeiro, que nos levou até à região das Beiras e suas montanhas, descrevendo como o pau também era utilizado pelos astutos almocreves nas suas andanças pelo mundo rural; em Agustina Bessa-Luís, que deu voz às mulheres, por vezes esquecidas perante a força imposta no masculino; e, por último, em Camilo Castelo Branco, que nos transportou com todo o realismo até Cavez, local onde verdadeiramente se pode, ainda hoje, vivenciar a paisagem, a ponte e tudo quanto nos é descrito por ele.
A Feira de São Bartolomeu ainda se realiza todos os anos, e aí se pode assistir à tradição do Jogo do Pau, atualmente apresentada como Património Imaterial de Portugal, através da Escola de Bucos, Cabeceiras de Basto.
Excertos da obra
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« Se havia homem pronto a vingar de compadrio, a ensarilhar o pau, a varrer testadas, fazendo acudir a tropa entre o escabrear do gado e os gritos das ovelhas que se esgueiravam de rastos, salvando na abada do avental o que restasse do gigo dos ovos, era esse Francisco Teixeira. » |
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Subitamente, um redemoinho de desordem ferveu, alastrando logo com um corricar de cachopos que se arrastavam sob as pernas do poviléu, e o escândalo ainda morno, ainda lento, das mulheres que reajustavam na nuca os lenços de algodão e buscavam no poial das portas um degrau seguro para abrigadamente presenciarem. Mas a luta embraveceu, magotes como vagas chocaram-se, confluindo das margens do largo, ouvia-se entre gritos o seco rumor dos paus que embatiam, estalavam, eram lançados longe, caindo sobre as tendas ou os arraiais das louceiras. E, então, numa clareira que se foi desenhando mais vazia, mais circular, destacou-se o pequeno vulto de Francisco Teixeira que avançava, grave e tranquilo, repelindo à sua volta o eriçado dos marmeleiros que combatiam, iam cedendo, recuavam, dispersando-se nas alas da multidão que se agitava, ondulando como um corpo que voga na maré. Havia sangue; os andores tinham parado na ladeira e os anjos choravam, não se atrevendo a abandonar o posto, suados sob as vestes debruadas com pele branca, de coelho, as botas amarelas de duraque muito atufadas na poeira. Sob o pálio, o abade, recolhido, mansamente esperava, entre as opas vermelhas cujas pregas o sol riscara de violeta e as filas de crentes ajoelhados sobre os lenços de bolso. «Então essa guarda?». |
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« - Que me interessa essa gente? - dizia. - A quem pode interessar é ao José do Telhado. Maria fazia má cara, como sempre, a esta referência ao famoso quadrilheiro, outrora amigo íntimo e mestre de jogo-do-pau de Francisco Teixeira. Mesmo durante a sua breve existência de banditismo, tinham ambos conservado uma discreta amizade, um fundo de tolerância mútua, que se compreendia sem se comprometer. » |
Ver também
- Consulte toda a Bibliografia
- Sobre Francisco Teixeira (José do Telhado)
Links externos
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- A Sibila - Wikipédia
- Agustina Bessa-Luís - Wikipédia