Livro: Contos Para Crianças - Antonio Figueirinhas
Sobre
- Relevância: ★☆☆
- Título: Contos Para Crianças
- Autor: António Figueirinhas
- Publicação: Porto: Livraria Editora - Educação Nacional, 1935
- Formato: 122 Páginas, Ilustrado
Resumo do excerto da obra
O conto A Ira narra a história de Joãozinho, um rapaz forte e saudável, mas dominado por um temperamento colérico e orgulhoso da sua força. Apesar dos avisos dos pais, João demonstra agressividade nas brincadeiras, sobretudo num jogo do pau com um amigo mais frágil. A violência gratuita de João provoca uma reação extrema do companheiro, que quase lhe causa cegueira. O episódio serve de lição moral: confrontado com as consequências reais da sua ira, João arrepende-se sinceramente e aprende a dominar os seus impulsos.
A Ira é um conto exemplar da literatura infantil moralizante do primeiro terço do século XX, em particular do contexto pedagógico português dos anos 1930. Em suma, um conto curto, eficaz e representativo do seu tempo: mais do que entreter, pretende formar, inculcando valores de autocontrolo, respeito e responsabilidade, através de uma narrativa simples mas contundente.
Excerto da obra
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« A IRA Era muito robusto e saudável o Joãozinho. A-pesar-de não ter mais de doze anos, tinha muita força, do que sentia certa vaidade. Tinha um génio irritável, agastando-se por qualquer coisa e chegando a praticar violências, quando o contrariavam. Os pais repreendiam-no; mas João respondia com maus modos, e só obedecia à força. — Meu pobre filho! — disse-lhe muitas vezes a mãe — esse teu génio há-de-te acarretar grandes desgostos. Numa tarde de verão, foi o Joãozinho brincar com o seu melhor amigo para debaixo das árvores do jardim. Depois de jogarem à péla, passaram ao jôgo do pau, por lembrança de João, que vira essa espécie de esgrima num teatro de feira. Aceitou logo o amigo, que era modesto e ingénuo; e eis os dois duelistas, cada um com a sua estaca nas mãos, travando combate. É claro que nenhum dêles se batia com arte e que o Joãozinho fazia consistir, como sempre, a sua superioridade na força bruta, pelo que mais duma vez desarmou o seu adversário, fazendo-lhe voar a grande distância a estaca, que o vencido apanhava resignadamente. Ora duma das vezes o Joãozinho não só atirou com a estaca do amigo ao ar, mas também lhe 'assentou uma paulada na cabeça. O pobre rapaz era bom por temperamento e nem por sombras tinha fumaças de valente. Aquela bordoada, porém, dada por maldade, irritou-o vivamente. E levando a mão à cabeça, onde crescia um grande galo, exclamou: — Grande estouvado! O orgulho de Joãozinho incendiou-se logo com estas duas palavras, que lhe pareceram os mais injustos insultos; e, erguendo de novo a estaca, descarregou tamanha pancada na cabeça do amigo que o sangue correu logo do golpe. O ferido cambaleou um pouco, fez mesmo a careta própria de quem vai chorar; mas de-repente atirou-se a João, e, deitou-lhe, sem reflectir, as mãos aos olhos, como se lhos quisesse arrancar. Aflito, sentindo vergarem-se-lhe as pernas e a fôrça dos braços abandoná-lo, João começou a gritar pelos pais, quando estes correram para êle enquanto o outro rapaz fugia aterrado, pelo jardim fora. Trouxeram logo água, deitaram-no na relva, banharam-lhe os olhos, animando-o e consolando-o o melhor que podiam. Felizmente os ferimentos de João não lhe tinham ofendido a vista. E então o pai disse-lhe com gravidade: — Realizou-se o que nós há muito receávamos. O teu génio colérico, junto à vaidade da tua fôrça, por pouco não causou uma desgraça… A ira levou-te a ofender o teu melhor amigo — até o podias ter matado… — e levou-o a êle a uma violência, de que poderias ficar cego. Reflecte bem, Joãozinho, e nunca mais te deixes arrebatar por êsses acessos de ira, que muitas vezes te impelem a faltar ao respeito até aos teus próprios pais e mestres. O rapaz ouviu em silêncio a admoestação do pai. Chorava de sincero arrependimento. E nunca mais se deixou arrebatar pela ira.
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