Livro: Figuras Gradas do Movimento Social Português

Fonte: Jogo do Pau Português
capa do livro

Sobre

  • Relevância: ★☆☆
  • Título: Figuras Gradas do Movimento Social Português
  • Autor: Alexandre Vieira (1880-1973)
  • Publicação: Porto: Tip. J.R. Gonçalves, 1959
  • Formato: 207 páginas


Figuras Gradas do Movimento Social Português é uma obra memorialista e biográfica de Alexandre Vieira, publicada no século XX, dedicada a retratar protagonistas do movimento operário, sindical e socialista em Portugal, sobretudo entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. O livro reúne perfis de militantes, dirigentes, intelectuais e agitadores sociais que marcaram o associativismo operário, a imprensa de intervenção, o sindicalismo e a propaganda política no período pré-Estado Novo.

A obra combina biografia, testemunho pessoal e crónica política, com um estilo directo, por vezes literário, e fortemente marcado pela experiência do autor no meio sindical e socialista. Não se trata de um dicionário neutro, mas de um livro de memória militante, no qual Alexandre Vieira procura preservar a recordação de figuras que considerava fundamentais para a história social portuguesa, muitas delas hoje ausentes da historiografia canónica.

Resumo

Em 1919, o escritor e jornalista Francisco Perfeito de Carvalho (1893–1958) publicou um texto crítico no qual, ao comentar um festival escolar e, posteriormente, um festival de uma associação operária, estabeleceu uma distinção clara entre boxe, futebol e jogo do pau. O autor condena o boxe como uma prática violenta e desumanizante, incompatível com os ideais de civilização e progresso que, segundo ele, deveriam orientar a formação da juventude. Em contraste, considera o futebol um desporto inofensivo, por dirigir a agressividade para um objecto inanimado, e valoriza o jogo do pau como uma actividade útil, educativa e disciplinadora.

No texto, Perfeito de Carvalho descreve o jogo do pau como um exercício que desenvolve destreza, agilidade e capacidade de observação, defendendo que a sua prática deve manter um carácter exclusivamente demonstrativo, evitando ferimentos entre os praticantes. Para o autor, o jogo do pau representa uma forma de canalizar o exercício físico e a energia combativa para uma actividade técnica e controlada, contrastando com modalidades que visam a incapacitação do adversário.

Este testemunho é relevante por mostrar que, no início do século XX, o jogo do pau era percepcionado por alguns sectores da imprensa portuguesa como uma prática socialmente útil, higiénica e moralmente aceitável, sendo colocado no mesmo campo educativo do desporto moderno, mas distinguido pela sua dimensão técnica e formativa.

Excertos da obra

Vai a associação escolar do Liceu de Gil Vicente realizar, no Cinema Condes, uma matinée em favor da sua caixa. E pede-nos que dessa festa publiquemos o anúncio respectivo.

(...)

Como quer que tivéssemos escripto há dias algumas palavras de desaprovação à inclusão dum combate de box no programma de uma festa escolar, escreve-nos agora uma associação operária perguntando se de bom aviso será meter num festival que vai realizar, um encontro de futebol e uma sessão de jogo-de-pau. E, coagidos deste modo a dar um parecer, explicaremos que a nossa pouca sympathia pelo box não implica aversão aos desportos em geral. Nada disso. O que não vemos é maneira de considerar o box, que é uma brutalidade sem mistura, como uma variante de desporto. Já com o futebol o caso é outro. Bem sabemos que, se o box é um diálogo de socos, o futebol é uma assembléa geral de pontapés. Mas há uma diferença fundamental: no box, os socos são trocados entre dois brutamontes, até que um deles succumba. Dá-lhe que ainda mexe! E só quando o vencido não mexer se concede o titulo de vencedor ao seu adversário. No futebol os pontapés são furiosamente dirigidos, mas a victima é uma insensível bola cheia de ar. Não prejudica ninguém semelhante passatempo. Para mais, sendo o jogo uma necessidade do homem, como terão verificado os senhores banqueiros, mais vale jogar o futebol, com as vantagens hygienicas do semidesnudamento, do exercício e do ar livre a que se submettem os jogadores, mais vale jogar o futebol do que o liques, cenófilo e desordenadamente irrequieto, em qualquer sórdida taberna. Por maneira que nada temos a objectar sobre o programma do festival da associação operária nossa consulente. Se nada temos a objectar no que respeita ao futebol, menos ainda haverá a dizer relativamente ao jogo-de-pau. Porque se o futebol é inofensivo, o jogo-de-pau é utilissimo. Exercício de destreza, de agilidade, de golpe de vista, um conselho vai para os que o praticam: que, nos encontros a realizar, se mantenha o cunho exclusivamente demonstrativo, evitando os contendores magoar-se. E aproveitem-se antes os progressos feitos para applicá-los a zurzir assambarcadores...


(1919). PERRFEITO DE CARVALHO (Páginas 23-31)

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