Livro: Lisboa d'outros tempos
Sobre
- Relevância: ★☆☆
- Título: Lisboa d'outros tempos II - Os Cafés
- Autor: Pinto de Carvalho (Tinop) (1858-1936)
- Publicação: Lisboa A.M. Pereira, 1899
- Formato: 322 páginas (20,5 cm x 13,5 cm)
Valiosa fonte para o estudo das mentalidades e para o conhecimento da vida social e artística durante o século XIX em Lisboa.
O autor, apesar do estilo leve e marcado pelo tempo em que foram escritos, baseia os seus artigos em conscienciosa investigação (cita muitos manuscritos e impressos existentes em bibliotecas e arquivos) e em entrevistas a habitantes mais idosos de Lisboa.
O 2º volume descreve a vida nos botequins e cafés desde finais do século XVIII. Em toda a obra perpassa a aura de um mundo perdido no tempo, dominado pela elegância, a devassidão, os fados e as touradas. [1]
Explicação preambular do autor
Assim como o primeiro volume da «Lisboa d’ outros tempos» é um agregado de artigos incertos em varias folhas periódicas, assim o segundo volume é uma serie de chronicas publicadas no "O Correio da Manhã" e no "Diário da Manhã". N’ettas desenhámos alguns perfis anedoticos e fizemos passar, rapidamente , como em quadros dissolventes, individualidades e sucessos que se vão esbatendo nas brumas do Passado. As fontes a que recorremos para as escrever são as mesmas que utilisámos para os artigos constitutivos do primeiro volume.
Que se releve a maneira, talvez um pouco desconnexa, como os assuntos foram expostos por quem é, simplesmente , um "touriste" na literatura.
Excerto da obra
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« Exhauriu a vida em polemicas arremangadas, gastou os nervos em trava-contas azedas, nas quaes fervia bordoada velha, como n'aquellas turras minhotas em que um varapau decidido ensarilha e varre uma feira, que debanda. (p.87) » |
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« No dia 21 de Julho [1833] os caceteiros e quejandos viram uma bruxa com a populaça amotinada" Um d'elles foi o celebre Malta. O Malta possuía uma loja de barbeiro na calçada de Sant'Anna, mas accumulava o officio com as funções de caceteiro. Como outros partidários do miguelismo usava chapéo armado, que elle collocava tal qual D. Miguel, isto é, d'esguélha, ou ás três pancadas, como se dizia n'esse lempo. Era medonho, um patife, um malvado, um dos mais ferozes miguelistas. Ao rasgar do dia 21 de Julho, o Malta, que não tinha conhecimento da retirada das tropas miguelistas para fora de Lisboa (retirada que se combinara em conselho de generaes no palácio do duque de Cadaval), exclamou: - Eu vou amansar estes malhados! - Contam que chegàra até ao largo de S. Domingos, mas, ahi, foi morto com três tiros d'espingarda. A justiça popular saldava as suas contas. (...) António Joaquim da Malta era barbeiro, como dissemos, e em 1828 requerera para ser nomeado official de diligencias da Intendência, porque, allegava, os constitucionaes lhe haviam espancado e afugentado os freguezes da sua loja. (...) Havia um corpo nacional fixo, chamado o batalhão de Malta, cuja missão se limitava a fornecer guardas para o Paço Real da Bemposta. Poucos dias antes do exercito de D. Miguel fechar o cerco de Lisboa, os constitucionaes mandaram uma força do batalhão para trazer as pratas da egreja de Monte Mor, perto de Caneças. Não sabemos se o conseguiram, mas o que sabemos é que tiveram de fugir de lá a unhas de cavallo, ficando morto o chefe da expedição. A este corpo pertenciam o José Maria Saloio, o valentão, mestre de jogo de pau, e Francisco Alves d'Azevedo da botica, que, mais tarde, também fez parte da Guarda Nacional. No da 24 de julho passava pelo Rocio um homem do campo, quando alguém, «ao vèlo, levantou a voz, dizendo: — Aquelle é o Sem Tripas, que matou o official do batalhão de Malta em Monte Mor — Immediatamente saltaram todos em cima do homem, que foi morto n'um abrir e fechar d'olhos. Momentos depois, o José Maria Saloio entrava na botica do Azevedo, e gabava se de ter dado uma canivetada no Sem Tripas, já depois de cahido, para assim vingar a morte do seu capitão. Ainda ha poucos mezes dizia um velho de Canecas que o homem morrera innocente. Não fora elle que matara o commandante da expedição. Os realistas convictos, sérios e honestos, reprovavam os processos radicaes dos energúmenos, da plebe ignorante, beata e feroz, prompta sempre a dar vivas ao vencedor. (p.172-173) » |
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« O brilhante escriptor sr. Zacharias d'Aça contou, em tempos, um interessante caso acontecido n'esse café. Entrou ahi o 'José Maria Saloio, homem de força hercúlea, e destemido liberal, que teve seus dares e tomares com o moço da casa, gallego robusto e grande miguelista. Este, no auge da fúria, disse não ter medo de malhados, ao que o outro replicou que também não tinha receio de burros. Engalfinharam-se os dois, e José Maria terminou a contenda, pespegando com o gallego debaixo da mesa. (p.220-221) » |
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« A psychologia do tempo mostra nos haver uma tendência esgrimidora, a bravura sem farfanteria, quando ainda se desconheciam o sport, o lawn tennis, o foolball, e todos esses barbaremos d'importação ingleza. Então, que o athlelismo parecia tomar uma forma cultual como na antiga Grécia, era numeroso o clan dos valentes: José Maria Saloio, grande jogador de pau e corista de S. Carlos; Gonçalo e José Lobo, que foram, no seu tempo, dos mais valentes estudantes da Universidade; José Maria Christiano, o bravo soldado das campanhas liberaes; Thomaz Jorge, cornetim do Gymnasio e professor da banda dos Cegos da Casa-Pia; os Schiappas, os Fragosos das Alcáçovas, João d'Aboim, poeta e jornalista; Luiz Forjaz, Diogo de Macedo, mais tarde engenheiro florestal; Francisco Pinto de Campos, ainda ha dois anos falecido em Villa Franca, com 77 anos, cuja valentia e força hercúlea eram notórias. Caçador consummado e toureiro amador, grangeou a estima do conde de Farrobo e do Conde de Vimioso, que o convidavam sempre para as suas caçadas e touradas. Entrara nas lutas da Maria da Fonte, e fora amigo do conde das Antas. A fanfarra estridente das requestas e aventuras alargava se em orchestrações poderosas, retinia em vibrações potentes, das quase mal nos chegam os echos amortecidos. Pugnazes, mas esthelas, pugiles, mas namoradiços, a indole esgrimidora d'esses leões não dava de mão ás exuberancias do sentimento. (p.242) » |
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« Hoje faz se mais gymnastica do que nunca, as praças de touros triplicaram, constituiram-se sociedades athleticas e cynegeticas; temos o cyclisnio, as carreiras de tiro, o 'jogo de pau, as regatas, o pugilato do box, tão amado de Ricardo III e de Byron; (...) (p.259) » |
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Ver também
- Consulte toda a Bibliografia
- Mestre José Maria da Silveira
- Conde de Vimioso
Referências
- ↑ Livraria Castro e Silva em: https://www.castroesilva.com/store/sku/1702PG030/lisboa-d-outros-tempos-i-figuras-e-scenas-antigas-ii-os-cafes