Livro: Retalhos históricos, urbanísticos e culturais da nossa cidade

Fonte: Jogo do Pau Português
capa do livro

Sobre

  • Relevância: ★★★
  • Título: Retalhos históricos, urbanísticos e culturais da nossa cidade. Livro IV, Subsídios para a sua monografia
  • Autor: Jacinto Soares; pref. Manuel Augusto Dias
  • Publicação: Ermesinde : Junta de Freguesia de Ermesinde, 2024
  • Formato: 4º volume da série, com 230 páginas (23 mm)
  • ISBN: 978-989-99813-2-4


Retalhos históricos, urbanísticos e culturais da nossa cidade é o título de um livro sobre a freguesia de Ermesinde, publicado em 2024. A obra, da autoria de Jacinto Soares, é um estudo sobre a história, a urbanística e a cultura local, e é o quarto volume de uma série que também se intitula "Ermesinde".

Resumo

O autor faz uma breve descrição do Jogo do Pau e destaca três jogadores de pau, de Ermesinde, sendo eles:

José Ribeiro, conhecido como “Zé Casqueira”, um jogador de pau já idoso que o autor conheceu no final dos anos 1950, na eira de uma casa de lavoura em Ermesinde. Vivia entre Ermesinde e Alfena e dedicava-se ao comércio de gado. O apelido “Casqueira” resultava da expressão que gritava durante o jogo: “ou dá casca ou casqueira”, refletindo o seu estilo combativo e o facto de andar sempre com o pau.

Frequentava feiras onde ocasionalmente se envolvia em conflitos e jogava o pau com outros indivíduos, especialmente no largo frente à tasca da “Arminda do Custódio”, em Alfena. Segundo moradores, alguns desses duelos eram organizados pelo casal da tasca e podiam terminar com feridos, levando a vários problemas legais — chegou a ter até catorze processos simultâneos. Acabou por morrer nos sanitários do Apeadeiro do Susão.

O texto menciona ainda outros homens ligados ao chamado “Grupo do Reguengo”, como “Romi”, Humberto Portugal, Manuel Beiras e Albino do Rio.

Chico Pedreiro, mencionado por Aquilino Ribeiro na obra O Malhadinhas. Chico Pedreiro era pedreiro de profissão e ensinou o Malhadinhas a jogar o pau quando este era jovem, revelando grande habilidade — conseguia até defender-se de pedras apenas com o pau.

O autor recorda ainda um ancião que conheceu na infância, apelidado de “Porena”, que vivia sozinho num antigo moinho em Sá e de quem se dizia ter sido pedreiro e excelente jogador de pau. Após comparar as datas, o autor considera provável que este “Porena” fosse o mesmo Chico Pedreiro de Ermesinde referido por Aquilino Ribeiro.

Por fim, aborda a figura de Zé do Telhado (José Teixeira da Silva, 1816–1875), conhecido tanto como jogador de pau quanto como personagem lendária da cultura popular portuguesa, descrito como corajoso e generoso, “que roubava aos ricos para dar aos pobres”.

Natural de Castelões de Recezinhos, aprendeu o ofício de capador e, ainda jovem, foi para Lisboa, onde se alistou nos Lanceiros da Rainha, participando nos conflitos entre cartistas e setembristas a partir de 1837. Após a derrota dos cartistas, fugiu para Espanha, regressando com a amnistia concedida pela Convenção de Chaves. Casou então com a prima, seu antigo amor.

Em 1846, com a revolução da Maria da Fonte, voltou à luta, integrando as forças populares da Junta do Porto. Destacou-se ao salvar o general Sá da Bandeira numa emboscada em Valpaços, sendo por isso condecorado com a Ordem da Torre e Espada.

A sua vida continuou marcada por perseguições e conflitos até ser preso em 1859, quando tentava fugir para o Brasil. Foi encarcerado na Cadeia da Relação do Porto, onde conviveu com Camilo Castelo Branco, que o mencionou em Memórias do Cárcere. Condenado ao degredo perpétuo em Angola — pena depois reduzida para 15 anos — viveu em Malange como negociante de borracha e marfim. Morreu de varíola em 1875, aos 57 anos, deixando três filhos. Foi sepultado perto de Malange, onde era conhecido como “Kimuezo”, “o homem das barbas brancas”, e onde o povo local ergueu um mausoléu em sua homenagem.

Excerto da obra

« "O Casqueira"

Tendo por base esta metodologia, iremos dar a conhecer aos nossos leitores o jogador de pau, um pouco desgastado pelos anos, que tivemos a honra de conhecer nos finais dos anos cinquenta, em Ermesinde, na eira de uma casa de lavoura há muito desaparecida.

Este edifício ficava na parte alta da Rua de Sá, prolongamento da actual Rua Almeida Garrett, a poente da Escola do Carvalhal (Casa Costa Maia), onde passava ele muito tempo devido aos laços de amizade que os caseiros desse tempo tinham com este homem.

O seu nome era José Ribeiro, embora o seu apelido fosse o "Zé Casqueira", e dedicava-se a comprar e a vender gado. Esta designação surgiu pelo que se dizia que ele durante o ardor do jogo gostava de dizer para o seu adversário, quando descarregava um golpe: "ou dá casca ou casqueira". Uma razão mais que suficiente para o pau o acompanhar sempre. A sua vida passava pela freguesia de Ermesinde (Passal) e Alfena (Reguengo e a Ponte dos Sete Arcos), onde deixou rasto e sempre habitou.

Ao que apuramos, além das várias passagens pelas feiras das nossas redondezas, onde por vezes entrava em conflito, entretinha-se a jogar o pau com outros comparsas nomeadamente junto à tasca da "Arminda do Custódio", tendo por palco o largo fronteiro, em Alfena.

Dizem-me alguns habitantes do lugar que esses duelos eram organizados pelo casal dono do estabelecimento e que, por vezes, terminavam da pior maneira, isto é, com feridos, o que lhe acarretava incómodos e processos jurídicos. Chegou a ter catorze questões ao mesmo tempo nos tribunais, desabafou um dos filhos deste homem que, ao que se diz, morreu nos sanitários do Apeadeiro do Susão.

Alguns homens dos quais apenas sabemos o nome aparecem, também, associados a este "Grupo do Reguengo", como um tal "Romi", Humberto Portugal, Manuel Beiras, Albino do Rio e tantos outros. » (Pág. 70-72)

« Outro ermesindense que ensinava a jogar o pau

Eis a história de outro jogador de pau, este referenciado na obra de Aquilino Ribeiro O Malhadinhas, onde se dá a conhecer um tal "Chico Pedreiro de Ermesinde", que foi o mestre e formador de um beirão nesta arte que agora aproveita para o engrandecer e elogiar. Para uma melhor compreensão, publicamos um extracto desse texto, na ortografia original:

"Ricos tempos em que era capaz de tais áfricas, ricos tempos! E Deus fale na alma de Chico Pedreiro, de Ermesinde, que veio da sua terra para a nossa erguer paredes e, começava eu a espigar, ia para trás do cemitério ensinar-me a jogar o pau! Apanhei muita negra nas mãos e nos braços, mas, honra lhe seja, aprendi o manejo todo. Graças a ele e à presença de Rita, que me incutia vontade de ser homem, pude varrer aquela desfeita com brio! O Chico Pedreiro era a alma dum jogador! Dois homens a atirar-lhe pedras, as pedras a choverem umas atrás das outras por cima dele, e ele parava-as só com o pau".

Acontece também que, há muitas décadas atrás, quando o autor frequentava a escola primária, conheceu de vista um ancião que habitava por caridade, sozinho, num pequeno moinho de água, em Sá (já desaparecido), de quem se dizia ter sido pedreiro e um hábil jogador de pau. Era conhecido pelo apelido de "Porena". Será este ancião o Chico Pedreiro de Ermesinde? Confrontando as datas, julgamos que sim.

NOTA: O Malhadinhas de Aquilino Ribeiro foi lançado em 1922, o que de certo modo se enquadra no mesmo tempo cronológico. Por outro lado foram recolhidos, pelo autor, outros indícios de conhecidos que alinharam pela mesma ideia de que o Porena era o "Pedreiro de Ermesinde". » (Pág. 72-73)

« O Zé do Telhado - jogador de pau e o mito que se criou à sua volta

Não podíamos deixar de mencionar neste capítulo o Zé do Telhado, não só porque foi um conhecido jogador de pau, mas sobretudo pela auréola que deixou na memória popular, como um homem corajoso, de bom coração, que "roubava aos ricos para dar aos pobres". O seu nome de baptismo era José Teixeira da Silva e nasceu em 1816, na freguesia de Castelões de Recezinhos - concelho de Penafiel. Mais tarde, aprendeu com um tio, com quem foi viver, a profissão de capador, na Sobreira - Caíde, do concelho de Lousada. Aos 19 anos, saiu de casa e foi viver para Lisboa, onde se alista nos Lanceiros da Rainha, tendo participado nas lutas que envolveram, a partir de 1837, os que pretendem restaurar a Carta Constitucional e os setembristas que defendiam a Constituição de 1822. Como Lanceiro da Rainha, o Zé do Telhado apoiava os cartistas e nessa condição sofreram vários reveses, até à sua fuga para Norte, que terminou com o exílio de vários soldados em Espanha. Entretanto, termina a guerra civil com a Convenção de Chaves e a consequente amnistia aos cartistas derrotados. Neste período de paz e desmobilização,

o Zé do Telhado casa com a prima, seu antigo amor. A conjuntura histórico-política do nosso século XIX não pára e logo em 1846 surge a revolução da Maria Fonte. Este homem, com uma vida difícil devido às perseguições que lhe moviam, alistou-se nas forças populares. Depois de comprar cavalo e fardamento, pôs-se à disposição da Junta do Porto.

A sua acção tornou-se notada, nomeadamente aquando da protecção que fez a General Sá da Bandeira, alvo de uma emboscada em Valpaços, salvando-lhe a vida.

Graças a este feito foi condecorado com a medalha de Cavaleiro da Torre e Espada pelo próprio Visconde de Sá da Bandeira.

Os anos que se seguiram foram muito agitados e violentos e o Zé do Telhado acabou por ser preso em 1859, quando tentava fugir para o Brasil.

Breve resenha dos seus últimos anos de vida

Esteve preso na Cadeia da Relação do Porto, onde conheceu Camilo Castelo Branco, que se refere a ele no seu livro Memórias do Cárcere. Julgado, foi condenado ao degredo perpétuo, para Angola, pena que foi mais tarde (1863) comutada para 15 anos. Viveu em Malange, negociando borracha e marfim, morrendo, vítima de varíola, aos 57 anos, em 1875, rodeado de três novos filhos. Foi sepultado perto de Malange este homem conhecido por "Kimuezo" - "o homem das barbas brancas". O povo, que lhe tinha grande estima, mandou erigir em sua memória um mausoleu. » (Pág. 73-74)

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Referências