Livro: Serranos - Ferrete

Fonte: Jogo do Pau Português
capa do livro

Sobre

  • Relevância: ★☆☆
  • Título: Serranos
  • Autor: Mário Braga
  • Publicação: Impressa na Casa Minerva, Coimbra, 1948 (1ª edição)
  • Formato: 73 páginas

Resumo

O conto descreve, num tom trágico e quase fatalista, a vida e o destino violento dos homens de Queiró, um lugar agreste e isolado na serra, habitado por lenhadores duros como os pinheiros que abatem. São tidos por gente bravia e perigosa — "raça de assassinos" — marcados por uma sina de sangue e violência que os persegue geração após geração.

Numa noite de tempestade, dois deles — Sancho e Briga — descem à aldeia de Vila de Cima e param numa taberna. O ambiente é tenso: os aldeões recordam velhas rixas com os homens de Queiró, e a presença dos dois desperta o rancor e o medo. À provocação de Valada, inimigo antigo de Sancho, segue-se uma luta feroz. Apesar de serem apenas dois contra nove, os lenhadores enfrentam-nos com os varapaus, numa cena de brutal intensidade.

O confronto termina em tragédia: Valada morre com o crânio rachado e Briga é mortalmente ferido à navalha. No meio do caos, o taberneiro Fontinha, tomado pelo pânico, apaga a luz para pôr fim à carnificina. Sancho foge na escuridão, carregando o companheiro agonizante pela noite e pela tempestade.

O autor conclui com amargura que os de Queiró continuam fiéis à sua sina — mais uma vez, "mataram". O destino deles, marcado pela dureza da serra, é o de viver e morrer entre o sangue e o pau, símbolo trágico da violência e da condição humana rural.

Conto «Ferrete»

« No alto da serra de Queiró, irmanado com a dureza dos fraguedos e pinheirais, empoleira-se o lugar do mesmo nome — Queiró. A terra é pobre e escassa, e os homens vivem de abater os pinheiros, seus irmãos no porte e na rudeza da corcódea. Vivem ali, bisonhos, apenas lembrados pelo golpe certeiro dos seus varapaus, em noite de romaria; eles, que têm o braço e o olhar afeitos ao bote do machado!

Gente de Queiró, gente má, alimento das grades da Vila e dos barcos do desterro. À lama não tem idade, e os de Queiró, sem orgulho, sem fanfarronice, continuam, pelos tempos fora, a dar razão à sua sina. Porque aquilo é uma sina! Ninguém duvida, Meses e meses, vivem eles, apenas lembrados nas histórias contadas no mormaço das lareiras, para reflexão dos velhos e faiscar de varonis lampejos na coragem dos moços.

Os de Queiró, gente mã, raça de assassinos... Mataram o Vida na Senhora dos Milagres, e ninguém sabia porquê. Mataram o Figão na venda do Pimpeu, em Vale de Crugens.

Mataram, mataram... E as histórias repetem-se, sempre iguais, mas sempre escutadas com interesse, porque nelas vive a morte, a violência e a coragem, Meses e meses, se escondem os lenhadores no alto da serra, na faina de abater os pinheiros, que depois carreiam até à Vila, para bastar à fome das serrações. Subitamente, no horizonte daquela vida árida e monótona como as amplas encostas cobertas de urze, desponta o eco de nova façanha. Mais uma dos de Queiró. E, sabendo-lhe do geito, já o povo lhes foge da sombra: é má gente, raça de assassinos...

Nessa noite, o tempo virou de salto. O crepúsculo vestiu o céu de nuvens pardas, que boiavam mansamente, como fumo espesso, por sobre as quebradas e os valeiros, Depois, a escuridão enguliu a serra com a boca da tempestade e da noite. Depressa a trovoada e o vento vieram dar voz àquela mudez suspensa sobre a solidão, Dois de Queiró, o Sancho e o Briga, vindos de Crugens, antes de se alentarem à serra, pararam em Vila de Cima, cá em baixo, no sopé. Também a tempestade andava à solta naquela aldeia: rugia nos becos, assobiava nas quinas dos telhados, refugiava os homens junto ao ninho das lareiras, Apenas a luz da venda do Fontinha dava mostras de ser ali terra de gente. O Sancho e o Briga entraram na taberna: uma toca mal alumiada, onde dançavam as sombras das pipas e dos homens sentados ao redor da mesa de tampo colorido pelas pintas das cartas de jogar. Entraram os dois, altos como pinheiros, com os fatos a pingar água, apoiados nos varapaus. Entraram, silenciosos, com um resto de tempestade a pesar-lhes nos gestos, sem saudar os circunstantes, O Fontinha, mal assombrado, largou os parceiros e veio atender. Os outros quedaram, com as cartas suspensas, esgueirando olhares para os recém-vindos, Queriam vinho. E o Fontinha apressou-se a servi-los.

Veio o pichel de lata negra a babar a espumaça roxa do carrascão, Bem depressa a picheira apontou o tecto com o fundo, e nova litrada foi exigida.

O lampeão balançava, vagaroso, soprado pelo arfar da ventania a correr lá fora. A sua luz, amarela como mão de morto, perpassava embalando as coisas e os homens, devassando os recantos, luzindo nas teias de aranha suspensas ao travejamento. A sueca recomeçara, muda, contrafeita nos gestos e no silêncio dos jogadores. Eram quatro a pegar nas cartas e cinco a ver, todos de Vila de Cima.

Enquanto os de Queiró, bisonhos, lentos, com os corpos ossudos escorados nos varapaus, pelos sovacos, emalavam a segunda litrada, que o Fontinha trouxera de má vontade.

Gente desconfiada, que olha por baixo, como bichos, no geito de sopesar o machado.

Caiam as cartas, moles, no tampo negro da mesa, e um dos parceiros, o Valada, recordava. Recordava aquele dia aziago em que tivera de iugir diante do varapau empunhado pelo Sancho. Uma questão de madeiras, onde nunca se descobrira a razão. Que o Valada fugira, mas ficara sempre na sua, Agora, contava: os de Queiró eram dois, nove os de Vila de Cima, não entrando o Fontinha, já se vê esse apenas se ocupava em impingir a zurrapa. Que aquilo era gente do diabo, com 6 porrete nas unhas, um pulso rijo e certeiro. O Valada, à sucapa, foi espichando os olhos para a banda dos lenhadores. Mediu o comprimento dos marmeleiros; mediu a altura que ia do chão coberto de areia até ao travejamento. Depois, à surrelfa, encarou com os amigos, que tinham já atentado na sua inquietação, bem lembrados da velha rixa com o Sancho, bem lembrados de todas as desfeitas sofridas frente aos caceteiros de Queiró. Entenderam-se sem palavras, na fala do ódio que os cimentava, Nove contra dois, nove navalhas contra dois cacetes quase inutilizados pela escassez do compartimento, o silvar da ventania nas frinchas.

Os de Queiró, alheados de quanto se passava, quedavam em frente do balcão, lembrando, talvez, as duas léguas negras e ásperas que teriam de galgar até ao conchego de casa. Todos à uma, então, os de Vila de Cima ergueram-se de modo a cercar estreito os outros dois, evitando assim que eles pudessem jogar os paus de largo. O Valada avançou até ao balcão, frente ao Fontinha, e comandou:

— Arriba uma litrada pra estes dois, que pago eu!

Virou-se para os companheiros, explicando:

— Fazem-mas e nã m'alembro. Gosto de ser amable, mesmo prós inimigos.

O Sancho e o Briga, sempre na mesma posição, apoiados nos marmeleiros, fitavam em volta olhares selvagens de bicho açulado.

O Fontinha voltou logo no outro pé, com a picheira a bolçar golos de carrascão. Encheu os copos, as mãos num tremedoiro, e ficou-se a olhar com um todo apatetado, O Valada tocou os copos ao longo do zinco do balcão, insistindo:

— Bebam os cavalheiros, que nã tem peçonha.,

O Sancho fez estalar a areia debaixo das cardas das botifarras, quando desencaixou o pau da cova do braço.

O Briga imitou-o, com gestos vagarosos, medidos.

— Sei que vomecês querem desfeitar cá o amigo— provocou o Valada, entendendo um sorriso matreiro.

O Sancho, então, com voz arrastada, avisou:

— Arreda pra lá...

E o outro, escorando-se nos olhares dos conterrâneos, que tinham estreitado o cerco, avançou a manápola e, erguendo um copo, meteu-o à cara do Sancho. Regougou:

— Bebe, que nã tem peçonha!

Logo o varapau estilhaçou o vidro, esparrinhando a vinhaça pelo carão e pelo fato do provocador. Já o Briga erguera também o marmeleiro, depois de escudar as costas com a parede. O Sancho recuperou o atraso, e os dois enfrentaram os nove de Vila de Cima.

Apenas os olhos falaram naquela trégua prenhe de ameaças. Quedavam, assim, a medir as forças, a ver quem primeiro se alentaria à investida. Bulia uma certa indeterminação entre a gente de Vila de Cima, a contrastar com a rija postura dos lenhadores. O Fontinha, lã de entre as pipas, atreveu-se:

— Prá rua, Valada. Que nos desgraças a todos!

Ninguém o sabia escutar, que ali os ouvidos apenas entendiam a fala do ódio e o rugir do vento à solta na aldeia.

Foi o Sancho, ao querer alcançar a porta, quem desencadeou o assalto, Sarilhou o marmeleiro a limpar o caminho.

Costas com ele, o Briga protegia a retirada. Os outros, no primeiro ímpeto, alargaram o cerco, com os olhos encantados na dobadoira dos paus.

Já estava o Sancho quase na rua, quando o Briga, que se atrasara, atrapalhou o voltear do porrete no travejamento baixo. Logo o Valada lhe caiu em cima, num salto de lobo, com a ponta da navalha feita ao arcaboiço. Já a folha se embebera três vezes na carne do Briga, antes que o companheiro voltasse de bordo, a trazer socorro. Mas distraiu-se no voltejar do pau, e chegou a sua vez de receber o assalto traiçoeiro. Na defesa, desabou o cacete do lenhador.

O golpe rachou o toutiço do Valada, abrindo-lhe uma torneira de sangue por sobre as feições convulsas. Ele estacou uns segundos, hirto, empedrado. Depois, deu em girar como um peão, cego pela sangueira que lhe envolvia a cabeça numa máscara rubra; as mãos, inquietas de sofrimento, abriam-se e fechavam-se espasmôdicamente, na ânsia de topar um lupar de apoio.

Esgotado o primeiro assombro, todos se voltaram contra o Sancho, mal refeito ainda da violência do golpe. Cairam-lhe 4 em cima como cães, numa fúria de socos, de imprecações, de foi ameaçar de navalhas. A todos o Sancho enfrentou, sereno, e apesar das facadas que lhe traçavam já as costas e os braços, Conseguiu chegar até junto do Briga, que gania de dor, agarrado ao ventre furado, donde escorria um fio de sangue, que ia empoçar na areia do chão. O pau, nas unhas do Sancho, transformava-se num círculo luminoso, leve como asa de borboleta. Ajudou o ferido com a mão esquerda, enquanto, com a direita, apontava uma porrada certeira a um braço que lhe erguia já uma navalha contra o peito.

O Briga, na sua dor, alcançou o intento do camarada: arrastou-se em direcção à saída. Caminhava dobrado, com as mãos a espremer a vida que lhe esguichava do ventre aberto, já quase tocavam a porta que a ventania fazia dançar nos gonzos ferrugentos, quando os de Vila de Cima recobraram ânimo. Foi então que rangeu uma voz saída lá das profundas da loja, onde reinava a sombra do vasilhame:

— Assassinos! Assassinos! Que me desgraçaram.

E o vulto do Fontinha, ridiculo na fartura do ventre que transbordava para fora do cós das calças, com os olhos envidraçados pelo terror, rompeu por ali fora, como um raivoso, com gestos frenéticos. Empunhava um mocho, avançando para o meio da casa, semelhante a um demónio gordo e apoplético, Repetia sempre:

— Assassinos! Assassinos! Que me desgraçaram, depois, num gesto ágil, que ninguém esperava dum corpanzil daqueles, lançou o mocho contra o lampeão. E uma negrura densa tragou o interior da taberna.

O Sancho aproveitou o momento para se esgueirar com o Briga pela porta entreaberta. O vento enrodilhou os dois homens nos seus braços de gelo, mal eles transpuseram a soleira. Nada se enxergava naquela noite medonha. O corpo do Briga, agora, pesava chumbo nos braços retalhados do companheiro. Caminharam às cegas, arrastando-se de parede a parede, as pernas bambas debaixo dos corpos sangrados.

E assim vaguearam como toupeiras, na esperança de encontrar o caminho da serra.

Os de Queiró, gente má, raça de assassinos, mataram o Valada na venda do Fontinha. Aquilo era uma sina, ninguém duvidava. » (páginas 21-27)

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