Livro: Sumario em que são réus Mestres de Jogo do Pau 1832

Fonte: Jogo do Pau Português
1ª folha do sumário


Sobre

  • Relevância: ★★★
  • Título: Sumário em que são réus André Castellos e Domingos Doutrelo, e autora a Justiça
  • Publicação: Polícia da Corte e do Reino, Bairro do Castelo de S. Jorge, Lisboa, 1832
  • Arquivo: Torre do Tombo, Feitos Findos, Processos-Crime, Letra A, mç. 13, n.º 3, cx. 33
  • Formato: 84 páginas

Resumo

Em 1832, Lisboa assistiu a um raro processo criminal contra dois galegos — Domingos Doutrello e André Castello — acusados de ensinar e praticar o Jogo do Pau sem licença policial. Surpreendidos por uma ronda na Rua Nova de São Mamede, foram presos e descritos como homens de “má conduta” que promoviam um jogo “terrível e funesto”. Nos interrogatórios, Doutrello admitiu ser mestre do jogo, defendendo que, sendo “à porta fechada”, não causava dano algum; Castello negou envolvimento. Após semanas na Cadeia da Corte, ambos foram libertados sob compromisso de não voltarem a ensinar nem permitir o jogo, ficando o caso encerrado. O processo, hoje preservado, constitui um dos mais antigos registos conhecidos da repressão ao Jogo do Pau em Lisboa, revelando o conflito entre a tradição popular e o controlo das autoridades no turbulento século XIX.

Domingos Doutrello e André Castello são assim dos mais antigos mestres documentados em Lisboa, detidos por ensinar e praticar o Jogo do Pau sem licença.

Sumário do Julgamento de 84 páginas

Contexto

O julgamento ocorreu sob a presidência do Dr. Francisco Barnabé Teixeira Neto de Mello e Vasconcellos, Juiz do Crime do Bairro do Castelo de S. Jorge.

Durante a ronda de 25 de Julho de 1832, quando os guardas encontraram o grupo a jogar o pau na Rua Nova de São Mamede, um dos presentes declarou ser “cabo de polícia” e garantiu que os homens ali reunidos eram “pessoas de boa conduta”. O comandante da ronda, acreditando na palavra dele, deixou-os seguir.

Mais tarde, ao verificar que o indivíduo não era cabo nenhum, ordenou nova diligência — mas já todos se tinham posto em fuga. Só ficaram dois: Domingos Doutrello e André Castello, que acabaram presos, e o processo estendeu-se até outubro do mesmo ano.

O Caso

A polícia, durante uma ronda entre as 14h e as 20h, descobriu um grupo de homens a "jogar o pau" (praticar o Jogo do Pau) num terraço da Rua Nova de São Mamede, em Lisboa, sem autorização da polícia.

Os agentes apreenderam os varapaus e prenderam:

  • Domingos Doutrello, identificado como dono do local e mestre do jogo;
  • André Castello, referido em relatórios como mestre ou responsável pela instrução dos jogadores.

Um dos implicados alegou ser cabo de polícia e tentou abonar (proteger) os jogadores, mas verificou-se depois que não o era, o que agravou as suspeitas de conluio.

Testemunhos

As testemunhas da ronda policial — incluindo cabos e rondistas — confirmaram:

  • Que o jogo era praticado sem licença;
  • Que os praticantes eram considerados “homens de má conduta” e “valentes de péssima moral”;
  • Que, ao serem surpreendidos, muitos fugiram, sendo apenas Doutrello e Castello detidos.

Interrogatórios

Domingos Doutrello (52 anos, galego, moço de fretes, residente na Rua da Biqueira):

  • Admitiu ser mestre de Jogo do Pau, dando lições aos outros.
  • Disse acreditar que, por ser à porta fechada, não era necessária licença.
  • Negou saber que o jogo estava proibido judicialmente e que o pátio tinha sido mandado encerrar no ano anterior.

André Castello (39 anos, galego, moço de fretes, morador no Pátio do Marquês de Vagos):

  • Negou ser mestre do jogo, alegando que estava em casa quando a ronda perseguiu um companheiro seu.
  • Disse não ter dado fuga a ninguém e que o verdadeiro mestre era Domingos Doutrello.

Resultado e Sentença

  • Ambos os presos foram advertidos e libertos sob termo de responsabilidade, comprometendo-se:
    • a não promover nem consentir mais jogos em suas casas;
    • a não dar refúgio a criminosos;
    • e a obedecer às autoridades sob pena de nova prisão e castigo.
  • A libertação de Doutrello foi formalizada em 20 de outubro de 1832, com menção de que “foi tido por corrigido pelo tempo de prisão”.

Ver também