Lenda da fundação da aldeia de Drave
Sobre
Entre a Serra da Freita e a Serra de São Macário, há um caminho tortuoso que parte de Arouca e, passando pelo sombrio Portal do Inferno, se perde entre fragas e precipícios.
Ao fundo de uma cova, onde as encostas parecem fechar-se sobre si próprias, surge a aldeia de Drave. Feita de xisto e silêncio, é conhecida como a Aldeia Mágica. Embora desabitada, mantém-se inteira, como se as suas casas esperassem apenas que os moradores regressassem de uma ausência demasiado longa.
Lá estão as paredes de pedra e os telhados de lousa, iguais aos das aldeias beirãs; lá permanece a capela branca, os espigueiros de granito e o rio que nasce da junção de três ribeiros — Palhais, Ribeirinho e Bouça. Esse rio atravessa o coração do povoado, formando uma cascata de águas cristalinas onde se poderia jurar que fadas se banham ao luar. Entre clareiras e árvores de fruto, há mesas de pedra tosca, como se algum artesão de sonhos as tivesse deixado para um banquete que nunca chegou a realizar-se.
O mais antigo documento conhecido que fala de Drave remonta ao tempo de D. Dinis, referindo o seu isolamento como refúgio de foragidos e almas errantes. Contudo, a verdadeira origem da aldeia vive na lenda de um homem: D. Francisco, o Primeiro.
Reza a tradição que esse Francisco fugia de perigos ou inimigos desconhecidos e se embrenhou nas serras em busca de paz. Sozinho, ergueu as primeiras casas com as pedras que a montanha lhe ofereceu. Mas cedo percebeu que nenhuma aldeia se faz de um homem só.
Foi então que desceu a Covelo de Paivó, onde se enamorou de uma rapariga. Quis trazê-la consigo, mas os irmãos da moça, fortes e ciumentos, tentaram impedi-lo. Um a um, enfrentou-os, e um a um os venceu, pois D. Francisco era mestre no Jogo do Pau, a arte guerreira dos pastores e viajantes.
Assim conquistou a mão da jovem e, com ela, regressou ao vale escondido. Tiveram filhos, trabalharam a terra, e pedra sobre pedra fundaram a aldeia de Drave.
Hoje, a aldeia permanece deserta, mas a sua história resiste. Escuteiros ali encontram abrigo, viajantes descobrem assombro, e há quem jure que, nas noites de luar, Drave ainda se ilumina com a magia de outrora, guardando em silêncio o mistério do seu nascimento.