Livro: A Justiça da Noite na Ilha Terceira

Fonte: Jogo do Pau Português
capa do livro

Sobre

  • Relevância: ★★★
  • Título: A Justiça da Noite na Ilha Terceira
  • Autor: Borges Martins
  • Publicação: Angra do Heroísmo, BLU Edições, 2006
  • Formato: Capa dura, 396 Páginas (24 cm x 17 cm)


Obra apoiada pela pela Câmara Municipal da Praia da Vitória, Junta de Freguesia dos Biscoitos, Junta de Freguesia da Vila das Lajes, Bensaude Turismo e Naviangra. Reúne 78 testemunhos de outras tantas pessoas inquiridas sobre a Justiça da Noite e que, de forma direta ou indirecta, viveram de perto esse movimento popular.

Obra composta por duas partes, uma dedicada à justiça popular nos baldios e a outra à justiça dos costumes.


Sinopse

A "Justiça da Noite", fora da questão dos baldios, funcionou como uma poderosa instituição, revestida dum altentinco secretismo, com que as populações dos meios rurais exerciam o seu poder de punir actos que lesavam os seus interesses e destruíam a sua unidade moral e social. Em quase todas as freguesias se registaram actos de Justiça da Noite, a qual intervinha no caso de separação do cônjuge, casal desavindo, amancebado, namoro indecoroso, obstrução de servidão, partilhas mal executadas, proibição do uso de águas, renda de casa em dívida, incumprimento de contrato ou de negócio, burla, furto, etc.

Era constituída por um grupo de indivíduos que tinha acção directa na manutenção dos costumes, da paz e da moral no seio das famílias e que, para efectuarem qualquer acção, reuniam-se a desoras e embuçavam-se para não serem conhecidos, dado que, as suas vítimas, podiam denúnciá-los às autoridades. Muniam-se de bordões, varapaus, espingardas, etc., para se sentirem mais seguros na execução dos seus planos. Actuava pela ameaça e, vexame moral, para intimidar o transgressor e obrigá-lo, por este meio de coacção, a corrigir-se, o que, algumas vezes, não acontecia. (Do Livro, pág. 217)

Excertos da obra

« - Vinham de cara tapada?
- Não, senhor! De cara descoberta! De chapéus na cabeça e xailes por riba de si! Vinham então armados de bordães pra se fosse preciso cascar nalgum!»
(Página 230)

« - E o que é que levavam nas mãos?
- Era bordães de conteira e cacetes valentes! (...)
Depois, dissemos pra ele vir e mais a gente. Ele disse que não ia! Não queria vir de maneira nenhuma! E a gente dava-lhe umas ripadas plas pernas fora!
E ele: - "Oh!, oh!, nã me molestes, que eu vou! Nā me molestes, que eu vou!"
- E a gente dizia: - "É home! Vá pra diente! Senão a gente mata-te aqui à pancada!"
- Ele não queria ir?
- Ele nã queria, mas veio! Veio andando pori fora a toques de cacete
(Páginas 238-239)

« - Eles não vos conheceram? - Não, que a gente ia com capuchos! E cada um levava um bordão na mão que era pra dar no casco de algum!»
(Página 279)

« Conta o caso de seu avô, Manuel Nobre Fernandes, conhecido na freguesia da Agualva, por o "Espanhol". Um grupo de indivíduos, armados de bordões, agrediram-no à paulada desde o Terreiro da Agualva até junto da ponte, os quais lhe bateram na cabeça resultando dai a sua morte. Este episódio ficou conhecido, na Agualva, pelo "Caso do Espanhol".
(...)
Portanto, ali organizaram a forma de fazer justiça a meu avô. Discutiram o assunto e depois, quando fecharam a venda, a briga começou. Como o meu avô era jogador de pau, defendeu-se. Ele foi a defender-se até à ponte da Agualva, do lado que vai para os Biscoitos.
(...)
- Os outros continuaram sempre a dar-lhe e ele a defender-se, sempre a defender-se e foram andando na luta até que chegaram ao local que há uma casa que era dum "Fraldão". (...) Como o meu avô não podia defender-se dos cães e dos que estavam a lutar com ele, aí é que começou a levar com os bordões até que o deixaram desmaiado na valeta. Depois, foi encontrado sobre a madrugada e vieram trazê-lo ao hospital de Angra, tendo falecido oito dias depois desse acontecimento.»
(Página 396)

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