Livro: Noites de Lamego - 1863
Sobre
- Relevância: ★☆☆
- Título: Noites de Lamego
- Autor: Camilo Castelo Branco (1825-1890)
- Publicação: Livraria de Antonio Maria Pereira, 1863 (1ª edição)
- Formato: 251 páginas
A obra Noites de Lamego é uma colectânea de contos de que o génio de Camilo se serviu para Satirizar o burlescos de uma época.
Uma cadeia de critica de costumes, pontos de vista cáusticos e modos de ironizar que prende e interessa os leitores deste obra camiliana. Uma soberba galeria de personagens.
Destacamos desta obra o conto «Como ela o amava». Um triângulo amoroso que tem por cenário a tradicional festa portuguesa de São Bartolomeu: eis o cerne deste conto de Camilo Castelo Branco, em que dois homens, João e Victor, lutam pelo amor de Isabel. Diante do desfecho terrível desse embate, a moça toma uma decisão drástica.[1]
Interpretação analítica
O artigo "Turismo Cultural - Património Literário Português do Jogo do Pau na oferta de novas experiências turísticas" dá-nos uma análise literária do Jogo do Pau português, reunindo um corpus de quatro romances que melhor retratam esta arte tradicional e o contexto sociocultural em que se desenvolveu. Através de uma abordagem analítica e interpretativa, o estudo procura identificar de que forma a literatura portuguesa representou o universo rural, as práticas de defesa e as expressões simbólicas associadas ao Jogo do Pau, evidenciando o seu valor enquanto património imaterial e elemento identitário da cultura popular.
Camilo Castelo Branco; Noites de Lamego 2ª edição; Lisboa; Publicações Europa-América, Pág.86 até 92,Como ela o amava!(conto inserido na obra Noites de Lamego) – Camilo Castelo Branco (2º edição – 1999)
Camilo Castelo Branco nasceu em 1825, em Lisboa, e faleceu em 1890, em S. Miguel de Seide (V. N. de Famalicão). Com uma breve passagem pelo curso de Medicina, estreia-se nas letras em 1845 e, em 1851, publica o seu primeiro romance, Anátema.
Em 1860, na sequência de um processo de adultério desencadeado pelo marido de Ana Plácido, com quem mantinha um relacionamento amoroso desde 1856, Camilo e Ana Plácido são presos, acabando absolvidos no ano seguinte por D. Pedro V. Entre 1862 e 1863, Camilo publica onze novelas e romances, atingindo uma notoriedade dificilmente igualável. Tornou-se o primeiro escritor profissional em Portugal, dotado de uma capacidade prodigiosa para escrever a partir da observação da sociedade.
Considerado o expoente máximo do romantismo em Portugal, autor de obras como Amor de Perdição, A Queda dum Anjo e Eusébio Macário, Camilo Castelo Branco, cego e impossibilitado de escrever, suicidou-se com um tiro de revólver a 1 de junho de 1890.
No conto “Como ela o amava!”, Camilo Castelo Branco transporta-nos até Cavez, freguesia de Cabeceiras de Basto. Retrata os amores de Isabelinha do Reguengo, moça bem-parecida, que é disputada por dois homens — quezília esta que, por norma, se resolvia com um bom jogo do pau.
“Na noite de São Bartolomeu, de 23 para 24 de agosto, dia da festa em Cavez, irá dar-se o acerto de contas.” (Castelo Branco, 1999)
Na verdade, a moça começara um namoro com um morgado, José Pacheco de Andrade, filho do capitão-mor de Basto, sendo que tudo apontava que o teria trocado por Vítor de Mondim. Como se irá constatar no final, Isabelinha do Reguengo mantinha em segredo um terceiro e verdadeiro amor com João Lobo de Cerva, que irá integrar o grupo do morgado (Castelo Branco, 1999).
“(...) Oito dias antes mandara demolhar em poças um braçado de paus para lhes dar elastério e assim cingirem-se melhor com as costas das vítimas. (...) Por nove horas da noite do dia 23, saímos em malta, caminho da ponte de Cavez, uma légua distante. Por volta das onze da noite fizemos alta numa aldeia chamada Arosa, convizinha dos montados por onde se estendia o arraial. Ali se reuniu connosco uma estúrdia que vinha de Cerva, e nesta os mais graúdos brigões da comarca (...)” (Castelo Branco, 1999: pp. 87)
“Tinha começado a luta. A ronda de Cerva avançava da parte dalém; a de Mondim, recebendo aquele movimento como sinal de batalha, avançou também. (...) De repente, os de Cerva fizeram pé atrás; os de Mondim também. E por momentos reinou um silêncio, que devia ser como a serenidade de um céu torvo de borrascas na intercadência de dois raios. Que suspensão fora aquela? (...) Isabel do Reguengo se lançara entre as vanguardas dos combatentes e bradara: matem-me a mim primeiro!” (Castelo Branco, 1999: pp. 89)
Através deste excerto pode constatar-se a força das mulheres. Bastou que Isabel se interpusesse no meio da paulada para que tudo ficasse suspenso. Mas iria continuar, já que quezílias por mulheres nunca se deixavam por resolver.
“Aí por volta das três horas vieram parlamentários dalém, propondo passagem livre das rondas de parte a parte. O morgado tomou a si o encargo de responder, tartamudeou: — Não há convenções! O mundo acaba-se aqui hoje! (...) Os parlamentários foram repetir com gravidade as palavras (...)” (Castelo Branco, 1999: pp. 90)
Tentada a concórdia entre as partes, pois já se previa um final trágico, os do lado do morgado de Basto, onde se incluía João Lobo, logo declararam não aceitar qualquer acordo. Nem que o mundo terminasse naquele dia. A honra tinha de ser vingada.
“Rapazes! À ponte! Ergueram-se todos (...). — A eles! Uma voz estridente se fez ouvir por sobre a algazarra dos brados e toada da música. Era Vítor de Mondim que bradava: — João Lobo de Cerva! — Quem me chama? — É Vítor de Mondim. — Aqui estou. — Se és homem, sai sozinho, que eu também saio ao meio da ponte. — Nunca o Diabo te mostrou homem mais homem! Aí vou.” (Castelo Branco, 1999: pp. 90–91)
Naquele ano, a feira de S. Bartolomeu ficou marcada pela morte dos dois pretendentes de Isabel do Reguengo, num acerto de contas sobre a ponte de Cavez — forma tradicional de resolver qualquer quezília no Norte de Portugal e, muito em particular, no concelho de Cabeceiras.
Excerto da obra
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(...) Na aldeia, onde eu então estudava latim, correu a nova de se terem desafiado para a romagem de S. Bartolomeu os valentes de dois concelhos inimigos, desde muito enrixados e aprasados para ali. Um morgado, meu vizinho, de nome José Pacheco de Andrade, oito dias antes, mandara demolhar em poças um braçado de paus de carvalho, com o fim de lhes dar elastério, e cingirem-se melhor com as costas das vítimas.
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« (...) Tenho que ele conversou dois anos com a Isabelinha do Reguengo; e depois ela deixou-o à minha conta, e voltou-se para mim. E vai ele, na feira de S. Miguel, caiu sobre mim, e mais vinte dos seus. Fiz face a todos, enquanto o pau não me estalou na cabeça dum. Depois caí debaixo dum bosque de estadulhos, e estive à morte. (Pág. 169) » |
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« Ouvi o retintim das baionetas sacudidas dos seus engastes pelos paus certeiros dos barrosãos, bandeados na hoste de Mondim. Divisei os doze soldados espremidos entre as multidões inimigas. De repente os de Cerva fizeram pé atraz, os de Mondim também, e por momentos reinou um silêncio. Que suspensão fora aquela? Cingi-me com a guarda da ponte, e cheguei ao meio. Avisinhei-me do primeiro grupo dos d'além, e ouvi dizer que, no afogo da briga, Isabel do Reguengo se lançara entre as vanguardas dos combatentes, e bradara: «Matem-me primeiro a mim!» E, dito isto, cruzara os braços. Víctor de Mondim reconhecera-a, e clamara aos seus: «Alto, meus rapazes!» e o Lobo de Cerva, cobrindo-a com o seu pau argolado de cobre, exclamara: «olhai que é minha noiva !». Assim se explicava o improviso regresso de cada exército aos seus arraiais. Caso digno de memória. Ai por volta das 3 horas vieram parlamentários d'além, propondo a passagem livre das rondas de parte a parte. O morgado tomou a si o encargo de responder, e tartamudeou: - Não há convenções O mundo acaba-se aqui hoje! Disse, e deu ares de se acabar primeiro que o restante do mundo. Cambaleou floreando o cerquinho elástico, tropeçou no próprio pau, e caiu na calçada que, por ventura, a fantasia rica e ardente lhe afigurou almofada com toda a flacides convidativa dum longo sono. Os parlamentários foram repetir com gravidade as palavras do ébrio. Rompeu de la temerosa grita, e logo o tiroteio. Lobo depoz o varapau, e pegou da sua clavina de dois canos. Isabel segurou-o pelos alamares de prata da jaqueta, rogando-lhe que se aquietasse. O bravo sacudiu de si a moça e bradou: - Rapazes! à ponte ! Ergueram-se todos, e o próprio morgado lá das trevas espessas da sua modorra, ainda rugiu: - A elles! Os de Mondim, quando ouviram o instrumental, avançaram à entrada da ponte. A passo igual iam ganhando terreno uns e outros. Uma voz estridente se fez ouvir por sobre a algazarra dos brados e toada da música. Era Victor de Mondim que bradava: -João Lobo de Cerva! Isabel lançou-se-lhe ao pescoço, dando vozes de aflicão e ternura. Ele repeliu-a com desamor de inimigo. E eu estava de ângulo a espreitar, sendo quando os dois paladinos, adiantados de suas imóveis coortes, param a vinte passos, com as clavinas aperradas. Não há-de ser tua nem minha!- disse Victor. Tua, por Deus te juro que não será! - respondeu Lobo. E, a um tempo, desfecharam, e, a um tempo, bateram em terra os dois moribundos arquejantes. Que horror de grita restrugiu então! Os de Mondim levantaram o cadáver de Victor, e defenderam-no; os de Cerva, cegos de furial vingança, não viram que os outros remessavam ao Tâmega o cadáver de Jodo Lobo. Isabel tinha caldo como fulminada pelo relâmpago das escorvas. Desmaiara. Quando voltei, ao nascer do sol, fui às caniçadas, e não vi Isabel. Perguntei por ela e disseram-me que tinha fugido como uma doida. Por ambas as margens do Tamega se alinharam duas fileiras de homens, rebuscando o cadáver de Lobo. Os melhores mergulhadores bateram todas as cavernas conhecidas. Perdidas forças e esperanças, volveram de novo à ira, e recobraram alento para se vingarem. (Pág. 176-178) » |
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