Livro: O Malhadinhas

Fonte: Jogo do Pau Português
capa do livro

Sobre

  • Relevância: ★★☆
  • Título: O Malhadinhas
  • Autor: Aquilino Ribeiro (1885-1963)
  • Publicação: 1ª publicação na Coletânea A Estrada de Santiago, em 1922


Inicialmente incluído em Estrada de Santiago (1922), O Malhadinhas acabaria por se tornar numa das mais conhecidas obras de Aquilino Ribeiro quando foi publicado em volume autónomo em 1958 (o autor acrescentar-lhe-ia a novela Mina de Diamantes). Em forma de monólogo, a obra conta-nos a história de um almocreve, o Malhadinhas, um serrano rústico, grosseiro e matreiro, que não tem quaisquer problemas em usar a «faquinha» que traz à cintura para corrigir o que entende por injusto. Defendendo-se à navalhada e golpes de pau (e por vezes a tiro) dos inimigos com que se vai deparando ao longo dos caminhos e da vida, O Malhadinhas presenteia-nos com uma série de episódios picarescos, num tom coloquial repleto de expressões idiomáticas, trazendo-nos o retrato de um Portugal esquecido.

Interpretação analítica

O artigo "Turismo Cultural - Património Literário Português do Jogo do Pau na oferta de novas experiências turísticas" dá-nos uma análise literária do Jogo do Pau português, reunindo um corpus de quatro romances que melhor retratam esta arte tradicional e o contexto sociocultural em que se desenvolveu. Através de uma abordagem analítica e interpretativa, o estudo procura identificar de que forma a literatura portuguesa representou o universo rural, as práticas de defesa e as expressões simbólicas associadas ao Jogo do Pau, evidenciando o seu valor enquanto património imaterial e elemento identitário da cultura popular.


Aquilino Ribeiro(1958), Bertrand Editora, 1ª edição: Setembro 2011, Malhadinhas capítulos: Capítulo 2, pág. 31 até 33.

Aquilino Ribeiro nasceu na Beira Alta, concelho de Sernancelhe, em 1885, e morreu em Lisboa, em 1963. Em setembro de 2007, por votação geral da Assembleia da República, o seu corpo foi conservado no Panteão Nacional.

O Malhadinhas foi uma das mais conhecidas obras de Aquilino Ribeiro. Em forma de monólogo, a obra conta-nos a história de um almocreve, o Malhadinhas, oriundo de profundas serras, que, pela descrição, nos transporta até à Beira Alta. Matreiro, sem problemas em usar a «faquinha» que traz sempre consigo, defende-se à navalhada e a golpes de pau dos inimigos com que se vai deparando ao longo dos caminhos e da vida.

O Malhadinhas transporta-nos a um Portugal quase esquecido, nas suas vivências, sociabilidades e tradições, dentre as quais o Jogo do Pau (Ribeiro, 2011).

“A ensarilhar a racha com tanta gana e fantasia que nem doido varrido a perseguir mosquitos à paulada. E, com grande alarde, desafiava o mais pintado para o jogo do pau, a perder ou ganhar uma moeda. (...) — Isto é um varredor de feiras temível. Está para nascer o primeiro que lhe faça sombra.” (Ribeiro, 2011: pp. 31)
“— Pois seja lá como quiser. Tem um pau? — Tenho um pau. (...) O pau dele era um nadinha mais alto que o meu, o meu um pouco mais grosso que o dele, segunda desvantagem nisto de florear gentilezas. Mas tão-pouco aceitei se tirassem à sorte os paus ou se igualassem, arranjando outros ou cortando no maior. Riscou campo o valentão, por prosápia, que tal não é de moda, e logo se plantou em posição de parar, pau a escorregar para a perna esquerda, mãos à devida altura.” (Ribeiro, 2011: pp. 32–33)

Excertos da obra

Segundo o livro, O Malhadinhas foi discípulo do Chico Pedreiro, de Ermesinde (que, diz-se, com o pau parava as pedradas que dois homens lhe atiravam).

« E Deus fale na alma do Chico Pedreiro, de Ermesinde, que veio da sua terra para a nossa erguer paredes e, começava eu a espigar, ia para trás do cemitério ensinar-me a jogar o pau! Apanhei muita negra nas mãos e nos braços, mas, honra lhe seja, aprendi o manejo todo.

Graças a ele e à presença de Rita, que me incutia vontade de ser homem, pude varrer aquela desfeita com brio! O Chico Pedreiro era a alma dum jogador! Dois homens a atirar-lhe pedras, as pedras a choverem umas atrás das outras por cima dele, e ele parava-as só com o pau. »

Mas, também nos diz que teve como mestre o maior jogador do Minho. Seria a tecnica Minhota, ou do Porto e o mestre andava a varrer feiras no Minho?

« E, notei, täo imprevisto lhe era que, se quisesse aos primeiros passes despachá-lo com uma pontoada, fazia-o täo certo como ter sido meu mestre nesta arte o maior jogador do Minho. Já os olhos de Rita se alegravam e me pareciam estorninhos a saltaricar num jardim. (...) »

Defendendo-se à navalhada e golpes de pau (e por vezes a tiro) dos inimigos com que se foi deparando ao longo dos caminhos e da vida, Malhadinhas confessa:

« O Pau defendia-me de cão, de malta frente a frente, mas para jogos de falsa fé e pessoas de mau sentido não havia como uma faquinha. »

Um dos episódios mais emblemáticos de Malhadinhas, passa-se em Santa Eulália, quando este se vê confrontado com um jogador de pau local, descrito como «(..) um varredor de feiras temível. Está para nascer o primeiro que lhe faça sombra.».

O desafiante aposta uma moeda de ouro de D. João V - que Malhadinhas dispensa caso ganhe, mas que a paga em dinheiro o seu valor caso perca – e, agarrando ao seu lódão (varapau de lódão), pede a Rita uma faca, uma navalhinha como diz, porque o intuito não será fazer mal…

Iniciado o jogo entre os dois, rodeados pela população, Malhadinhas conta, segundo as palavras de Aquilino: [1]

« (…) e à voz: é uma! é duas! é três! Só armei para receber o pimpão que caía sobre mim de pancada alta. Varri o golpe e, a tentear-lhe o manejo, comecei a parar com brandura, como a medo.(…) Tau-tau, a defender-se duma pancada ao ombro, facilitou-se-me pular-lhe ao peito, e limpei-lhe o primeiro botão, o rei. Foi tão rápido que ninguém reparou e mal me deu tempo para varrer a resposta que me mandava à cabeça.(…) Dois botões, capitão e soldado, foram à viola, um a seguir do outro, tão calados e cerces como o primeiro. E, racha contra racha, continuámos estre-loiçando.(…)

(…) quando o pau dele, vergastado pelo meu, rodou por largo e desceu adormecido, que degolei o meu quarto botão, o ladrão. E obra com asseio; ninguém viu, como aliás suceda das outras vezes. O colete tinha cinco botões, faltava-me o último, o segundo rei. (…)

E eu pude rematar a partida, ripando-lhe o último botão, com mais mandinga e disfarce que no jogo da vermelhinha. - Bastará? – pronunciei eu, plantando-me em meia defesa. O homem aprumou o pau, encostando-se a ele, pôs-se a limpar o suor da testa. »

Quando o povo berra e felicita ambos os jogadores, não havendo vencedor, nem vencido, Malhadinhas interrompe:

« - Alto lá! – brandei. – Há vencedor e vencido, se é que não morreu o Direito em Portugal. Olhem bem! Afirmavam-se todos para mim, afirmavam-se depois para ele e não percebiam.

- Abotoe lá o colete, camarada! – tornei eu para o mata-sete. – Abotoe-o que se lhe desabotoou. Está suado e pode apanhar uma pneumonia… O fanfarrão ia fazer o que eu lhe indicara e, como pelo facto não encontrasse os botões, procurou-os com a vista.(…)
Mande vir uma agulha – e, ao mesmo tempo que isto dizia, deitando entre o pulso e o canhão da véstia, mostrei o canivete que segara os botões.

Ficaram todos suspensos quando vieram ao entendimento completo da façanha. »

Galeria de imagens

  • Ilustrações para O Malhadinhas de «Bernardo Marques»[2]
  • Outras imagens

Ver também

Links externos

Referências

  1. LOPES, Paulo, O Jogo do Pau Português, 5livros, 2020 (sobre o livro)
  2. Ilustrações para o Malhadinhas no Museu Calouste Gulbenkian