Recorte Jornal: Há 40 anos - A autoridade policial teve de intervir

Fonte: Jogo do Pau Português

Sobre

  • Relevância: ★★★
  • Jornal: n/d
  • Autor: Raúl das Neves Reis (1890-1960)
  • Publicação: n/d (+/-1947)


Em 1907, durante um sarau promovido pelo Infante D. Afonso no Coliseu dos Recreios, Arnaldo Ressano Garcia e João de Moura Pinheiro protagonizaram um emocionante e inesperado assalto de Jogo do Pau, que terminou com a intervenção da polícia devido à intensidade do combate. Ambos foram formados por Mestre Artur dos Santos, renomado professor do Ginásio Clube Português.

Artur dos Santos foi discípulo de Pedro Augusto da Silva, outro mestre célebre e elegante, que também foi treinado por José Maria Saloio. O artigo narra feitos marcantes desses mestres e alunos, destacando a habilidade, coragem e paixão pela tradição do Jogo do Pau. A história ressalta a relevância do Real Ginásio e o prestígio desses eventos, que reuniam desde a família real até o público geral.

Artigo

« A AUTORIDADE POLICIAL TEVE DE INTERVIR para dar fim a um assalto de jogo do pau entre Ressano Garcia e Moura Pinheiro, num sarau do Ginásio Clube Português.

Evocam-se proezas de mestre Artur dos Santos e Pedro Augusto da Silva.

Inaugurado o Coliseu dos Recreios em 14 de Agosto de 1890, raro foi o ano em que não se efectuou, na grandiosa sala de espectáculos, um sarau do Real Ginásio Clube Português. As festas da prestigiosa instituição, a caminho da maioridade, constituiam verdadeiros acontecimentos citadinos. No circo dos portas de Santo Antão reunia-se o que de melhor havia em Lisboa. Não faltavam os autênticos aristocratas, a alta e a média burguesia e a gente de povo. A família real assistia quase sempre aos belos programas proporcionados pelos rapazes do Ginásio.

O episódio que vamos narrar ocorreu se não estamos em erro, num sarau que o Infante. D. Afonso promoveu em 26 de Marco de 1907 a favor do instituto de que era patrono. Do programa constava um assalto de jogo de pau entre Ressano Garcia e Moura Pinheiro, dois rapazes possantes e valentes, que uns anos mais tarde se evidenciaram na sociedade.

E não esquecem, de facto, facilmente os nomes do coronel Ressano Garcia e do dr. Moura Pinheiro.

Um combate emocionante.

O publico esperava assistir a uma exibição de jogo de pau como habitualmente lhe era oferecida, com uma série de paradas e respostas durante alguns minutos. Os dois rapazes fizeram a saudação habitual, mas depois de alguns choques das varas, de troca de golpes e de diversos floreados, começaram a aquecer. Cada um procurou mostrar quanto sabia da esgrima nacional Os paus ricocheteavam no ar e caiam fulminantmente sobre os contendores, que se livravam habilmente, com réplicas esforçadas e cheias de ligeireza.

A certa altura os dois valentes moços perderam o domínio dos nervos e esqueceram-se da «lição». Jogaram por conta própria... e a «sério». A luta provocou emoção e electrizou os espectadores, que se puseram de pé entusiasmados, cobrindo de palmas Ressano Garcia e Moura Pinheiro. Mas as ovações ainda os excitaram mais. O combate prolongava-se demasiadamente e ameaçava assumir aspectos trágicos. E toda a gente começou a ter profundo receio das consequências, pois os dois jogadores, cheios de mocidade e decisão, batiam-se loucamente.

O numero só terminou com a intervenção da autoridade policial. Os dois mocetões terminaram a luta completamente alheios ao formidável efeito provocado pela sua valentia e longe de perceberem que tinham estado tanto tempo a combater. O infante D. Afonso chamou-os á tribuna e apresentou-lhes as mais calorosas felicitacões. bem como ao professor de jogo do pau do Ginásio, que os acompanhou.

Mestre Artur dos Santos, jogador forte e decidido

Quem industriara na esgrima portuguesa os dois fogosos mancebos fora mestre Artur dos Santos, que aí está felizmente vivo, desempenhado e vigoroso, ainda a leccionar ginástica e a recordar saudosamente jornadas gloriosas da sua existência. É socio de honra do Ginásio Clube Português. Durante vinte e seis anos, de 1898 a 1924 ensinou a jogar o pau no velho instituto da rua Serpa Pinto. Foram seus melhores discipulos:

o coronel de engenharia Arnaldo Ressano Garcia, lente da Escola Politécnica; dr. João de Moura Pinheiro, médico e grande lavrador da Beira; Joaquim da Cruz, lavrador; engenheiro Humberto Reis; dr. Cesar de Melo, médico e professor; João Capristano, Francisco Costa; Filipe Martins etc.

Dedicou-se a vários desportos e em todos brilhou. Mas o jogo do Pau apaixonou-o. Aprendeu com Pedro Augusto da Silva, de quem mais tarde foi ajudante.

Ficou célebre o assalto que efectuou no Real Ginásio com um famoso mestre do Ribatejo. José Ruivo, adversário de grande categoria e de temar Cobria-se admirávelmente e entrava com uma rapidez prodigiosa. Artur dos Santos ficou vencedor, demonstrando extraordinário brio, muita forma, grande decisão e valentia. José Ruivo saiu «tocado» do combate. Não admira, pois que os discípulos de Artur dos Santos se comportassem como Ressano Garcia e Moura Pinheiro.

Eram todos de boa cepa e tinham óptimo mestre.

Pedro Augusto da Silva era tão elegante no trajo como forte no jogo do pau.

Como dissemos acima, o Artur dos Santos teve como professor do jogo de pau Pedro Augusto da Silva, que por sua vez, fora o melhor discipulo de José Maria Saloio, portanto perito a executar um «sarilho», «passar a volta á segunda» e meter «uma ponta» com «pé ligeiro e vista pronta».

Pedro Augusto era um verdadeiro janota, modelo de asseio e elegante no trajar. Levantava-se muito cedo, tinha hábitos de madrugador. E uma manhã, a horas em que ainda havia pouca gente na rua, encontrou, nas alturas do Corpo Santo, dois peixeiros a jogarem o pau com as varas dos cabazes.

Zacarias de Aça, a quem fomos rebuscar este episódio, narra-o da seguinte maneira:

«Como o caso se passou não sei eu; o que é certo e que de ali a pouco, travado o diálogo ás boas com eles, o pau dum passava-lhe para as mãos; e ei-lo, já metido no jogo, a fazer flores, quando olhando em volta, se viu rodeado de muita gente, todos com os olhos esbugalhados e cheios de admiração pela novidade do espectáculo!...

Surpreendido, não perdeu todavia, o sangue-frio. Os golpes choveram como saraiva sobre o pobre cabazeiro, tocado por todos os lados, e que já não sabia para onde se voltar. O último, um «rebate fez-lhe saltar o pau fora das mãos...»

O mestre de Artur dos Santos retirou-se então, compôs a sobrecasaca, endiretou o chapéu alto que era a moda de então, e passou gravemente por entre o povo que assistira maravilhado á cena.

Pedro Augusto seguiu impecável e distinto ao seu destino, enquanto o adversário commentava:

- O «casaca» joga que nem o diabo! E, se fosse a valer que tareia eu apanhava!

Que diriam os outros! Um senhor fino, de chapeu alto!

NEVES REIS »


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