Chico Pedreiro
Quem foi Chico Pedreiro
Entre as figuras mais antigas associadas ao Jogo do Pau na região de Ermesinde destaca-se o enigmático Chico Pedreiro, um homem cuja memória persiste sobretudo através da tradição oral e da literatura de Aquilino Ribeiro. A sua figura, embora envolta em sombras, marcou decisivamente a formação de um dos personagens mais emblemáticos da cultura popular portuguesa: o Malhadinhas, cuja vida real decorreu entre 1830 e 1914.
Tendo vivido provavelmente entre 1804 e 1880, Chico Pedreiro pertenceu à geração de mestres populares que transmitiam a arte do varapau de forma direta e prática, longe das escolas formais que só mais tarde se organizariam. Pedreiro de profissão — ofício duro e itinerante — chegou a Ermesinde para erguer paredes, mas cedo se tornou conhecido pela sua habilidade excepcional no jogo do pau. Foi ali, nos terrenos atrás do cemitério, que ensinou o jovem Malhadinhas, então a despontar para a vida e ansioso por provar o seu valor.
O testemunho mais vivo que possuímos provém da obra O Malhadinhas, onde Aquilino Ribeiro recupera a lembrança do seu mestre: um jogador vigoroso, capaz de aparar até pedras atiradas por dois homens, usando apenas o varapau como escudo e arma. O escritor recorda as negras nas mãos e nos braços, marcas da aprendizagem intensa, e o respeito profundo por aquele homem que lhe transmitiu não só técnica, mas também bravura e dignidade no confronto.
A tradição oral local conservou igualmente a memória de um ancião conhecido por Porena, habitante solitário de um moinho já desaparecido na zona de Sá, em Ermesinde. O conjunto de coincidências — profissão, idade aproximada e reputação como jogador de pau — levou alguns investigadores a acreditar que Chico Pedreiro e Porena poderiam ser a mesma pessoa, encerrando assim a última pista de uma vida que se esbateu antes de chegar ao século XX.[1]
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« E Deus fale na alma do Chico Pedreiro, de Ermesinde, que veio da sua terra para a nossa erguer paredes e, começava eu a espigar, ia para trás do cemitério ensinar-me a jogar o pau! Apanhei muita negra nas mãos e nos braços, mas, honra lhe seja, aprendi o manejo todo. Graças a ele e à presença de Rita, que me incutia vontade de ser homem, pude varrer aquela desfeita com brio! O Chico Pedreiro era a alma
dum jogador! Dois homens a atirar-lhe pedras, as pedras a choverem umas atrás das outras por cima dele, e ele parava-as só com o pau.
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