Lenda da Justiça de Fafe

Fonte: Jogo do Pau Português

Sobre

A lenda da Justiça de Fafe é uma apologia da justiça popular. Um dos maiores símbolos referenciais de Fafe, é vista como o espírito e o verdadeiro ex-libris desta localidade, e foi celebrada por um monumento na cidade.

Há, pelo menos, três versões desta lenda, duas delas do séc. XIX, devido a um duelo de varapau, a outra a justiça feita pelas mãos do povo, no tempo tempo do conde D. Henrique, seja à antecâmara da nacionalidade portuguesa.


A primeira versão, e a mais difundida data de 1866, foi objecto de um longo poema de Inocêncio Carneiro de Sá, o Barão de Espalha Brasas. Narra um episódio, registado no século XVIII e protagonizado pelo Visconde de Moreira de Rei, político influente no concelho e homem de bem mas não de levar afrontos para casa.

Deputado às Cortes, terá chegado atrasado a uma sessão daquele órgão monárquico, no que terá sido censurado grosseiramente por um marquês, também deputado, que chegou ao desplante de lhe chamar "cão tinhoso". O visconde fingiu não ouvir o impropério e mostrou-se tranquilo durante a sessão mas, finda aquela, interpelou o marquês petulante, repreendendo-o pelas palavras descorteses que lhe havia dirigido. Em vez de lhe pedir desculpa, este arremessou-lhe provocadoramente as luvas no rosto, convocando-o para um duelo.

Ao ofendido competia escolher as armas, e quando todos pensavam que iria preferir espadas ou pistolas, como era usual na altura, o visconde apresentou-se para o recontro munido de dois resistentes varapaus. O marquês não sabia manejar esta arma grosseira mas o visconde, perito na arte do jogo do pau, tradicional nesta região, espancou o seu opositor. À gargalhada perante o acontecimento, os populares que presenciavam não se contiveram e gritaram: "Viva a Justiça de Fafe!".

Outra versão narra as consequências de um pedido de casamento por parte dum lisboeta. Mas quando o noivo se recusou a casar, o pai da rapariga perseguiu-o e aplicou-lhe a Justiça de Fafe.

O Monumento à Justiça de Fafe, evocativo desta tradição e da autoria de Eduardo Tavares, foi inaugurado em 23 de Agosto de 1981 na rua João XXIII desta cidade. Consiste em um estátua com a particularidade de representar um homem a bater noutro com um pau e foi colocada nas traseiras do tribunal de Fafe, insinuando que quando a justiça oficial não funciona, a mão popular apresenta-se. [1]

Nota — A tradição que atribui este episódio ao “Visconde de Moreira de Rei” encontra-se já fixada em fontes oitocentistas, nomeadamente no poema de Inocêncio Carneiro de Sá (1866). Contudo, o título de Visconde de Moreira de Rei é posterior ao período em que os factos são situados, o que sugere uma possível construção ou adaptação tardia da narrativa. Algumas versões associam ainda o episódio a um deputado fafense identificado como António Augusto Ferreira de Melo e Carvalho, hipótese que, não sendo plenamente comprovada, reforça o carácter tradicional e reconfigurado desta história.


A segunda versão, idêntica à primeira, relata a história de de um morgado de Fafe que foi a Lisboa a uma reunião de gala, onde viu como um alfacinha desfeiteava atrevidamente uma senhora. Pois não esteve com meias medidas, sacudiu-o, pelo que o outro o desafiou para um duelo. Aqui coincide a versão de ter sido o varapau a arma usada, e o outro, coitado, também levou que lhe chegasse.


Na terceira versão, existia então um cavaleiro chamado D. Fafes Talesluz, alferes-mor do pai de D. Afonso Henriques, a quem foi doado Monte Longo - antiga designação de Fafe, como saberão-, mercê esta pelos seus feitos ao serviço do conde. Pois D. Fafes era casado com uma senhora muito bondosa, amiga dos pobres e do povo em geral. Só que, em dada altura, o cavaleiro teve uma paixoneta pela aia da esposa. Ambiciosa, querendo D. Fafes só para si, ela envenenou a ama. E como o povo se apercebeu de que aquela morte não havia sido natural, calculando quem matara, foi a casa de D. Fafes exigir que a aia lhe fosse entregue. Assim aconteceu a justiça de Fafe: uma carga de paulada na bela senhora, até que esta embarcou para o outro mundo.


Afinal de contas, a justiça de Fafe só tem um protagonista comum em qualquer episódio, o lódão. [2]

Poema do Barão de Espalha Brasas

« É Fafe povoação muito moderna,
contando um séc ‘lo apenas de existência.
De Moreira de Rei foi subalterna
e sobre ela alcançou magna ascendência.

Na terra decadente, em fruto avonde,
havia outr’ora um nobre, altivo e ousado;
De Moreira de Rei era Visconde,
político influente e Deputado.

Homem franco e leal, de poucas tretas,
não ligava à coroa e aos brasões;
se o feriam, largava as etiquetas,
correndo o atrevido a bofetões.

Nas Cortes, certo dia, a uma sessão
a tempo não chegou; e um tal Marquês,
supondo que o Visconde era vilão,
censurou-o em gesto descortês.

O Visconde, que entrara pressuroso
inda ouviu do Marquês o insulso estilo
em que ele lhe chamava “cão tinhoso”,
mas sentou-se, fingindo-se tranquilo.

Finda a sessão, ao Marquês petulante
a frase censurou, de audácia rara;
porém este, num gesto provocante,
arremessou-lhe a fina luva à cara.

Ajustou-se o duelo; e competia
a escolha das armas ao Visconde.
Marcou-se p ‘ra o encontro a hora, o dia
e o local, que eu nunca soube aonde.

Ocultos da polícia e dos meirinhos,
no sítio da pendência, o fidalgote
compareceu, assim como os padrinhos.
Veio o Visconde e um homem c ‘o um caixote…

E dentro deste as armas escolhidas
pelo Visconde: as armas dos pataus!
Nem ‘spadas nem pistolas homicidas:
Eram dois resistentes varapaus!!!

O Marquês, em tais armas logo inepto,
ao ver aqueles paus de marmeleiros,
forçado a aceitar o estranho repto
pegou por sua vez num dos fueiros.

Começou a sessão de bordoada:
e o Visconde, com a mor placidez,
deu-lhe tanta e tão pouca fueirada
que o lombo pôs num feixe ao tal Marquês.

Mau grado tudo ser gente de sizo,
os presentes, em vez de lamentar,
não conseguiram sufocar o riso,
findando o duelo em gargalhada alvar.

Da hilariedade ao ver o desaforo,
acode gente; e além daquela gafe,
começam todos a gritar em coro;
“-Oh! Viva! Viva a Justiça de Fafe!!!”

De Moreira de Rei, pois, ao Visconde,
do duelo a propósito descrito,
se deve a origem, que a História esconde,
do ventilado e tão estranho dito. »

Artigo Jornal Diário de Lisboa de 18 julho de 1986

« “Justiça de Fafe”

— Quando o ilustre deputado de Fafe escolheu as armas. deixou de parte a espada e a pistola. preferiu um bom pau de marmeleiro e acabou por desancar o arrogante colega lisboeta.

A história aconteceu no século passado. o deputado fafense às Cortes chamava-se António Augusto Ferreira de Melo e Carvalho e assim terá nascido a expressão «a justiça de Fafe». quer dizer. «nada melhor que um bom pau de marmeleiro para se dizer de sua justiça».

Ainda hoje existem em Fafe alguns grupos de «jogo do pau» e a estátua mais conhecida da cidade chama-se «Justiça de Fafe». foi inaugurada em 1981. e mostra um homem (de Fafe, com certeza) de pau alongado a dar uma bordoada num senhor mais nutrido (possivelmente forasteiro).

Quando a estátua foi inaugurada, junto ao Palácio da Justiça de Fafe, o principal magistrado da localidade insurgiu-se. À própria mãe do actual presidente da Câmara Municipal. Dona Miquelina Summavielle, considera que não foi de muito bom tom construir-se tal estátua daquela maneira.

Mas a estátua está lá e sabe-se que os fafênses já não resolvem (sempre) os seus problemas à paulada. embora mantenham a fama de valentes e destemidos.

Longe vão os tempos em que o tio do presidente da Câmara Municipal. magistrado em Fafe, se viu aflito com o ataque repentino de um conterrâneo que julgava na altura.

O homem, do clã dos «Felizardos», pegou numa cadeira da sala de audiências e atirou-a ao juiz.

O juiz, também conhecedor da «Justiça de Fafe», não esteve com meias medidas: pegou na chamada «vara da justiça». que antigamente se mantinha junto à mesa dos magistrados. e tratou de se defender à paulada.

A «vara da justiça» já não ormamenta as salas de audiência do Tribunal de Fafe e, desde então, as cadeiras estão cuidadosamente pregadas ao soalho.

No gabinete do vereador José Manuel Domingos, um quadro na parede recorda também a justiça de Fafe: ali está retratado uma figura típica da cidade. o Paredes. de beata na boca e pau na mão.

O Paredes. um pacífico fafense que faleceu há cerca de seis anos. era provavelmente uma das figuras mais conhecidas da cidade. amigo do seu copo e senhor de boa imaginação.

O artista que pintou o Paredes para a posteridade é um ex-padre. Vítor Costa, que vive hoje no Porto. À sua vocação sacerdotal sobrepôs-se a vocação artística. quando o seu bispo o proibiu de frequentaf um curso de belas-artes. há uns anos atrás.

Quanto ao Paredes, muitos fafenses se recordam de quando ocupou. para viver, um ex-prostíbulo da povoação.

Ignorantes, da debandada das senhoras, muito bom homem acordava fora de horas o pacífico Paredes, em busca de prazeres proibidos.

Descontente, e senhor da sua privacidade, o Paredes escreveu em grandes letras na porta da sua nova casa: «Aqui só mora o Paredes». »[3]

Verso

De forma a perpetuar esta tradição O Monumento à Justiça de Fafe, da autoria de Eduardo Tavares, foi inaugurado em 1981

Fafe quis perpetuar em forma de monumento da autoria de Eduardo Tavares, erigido nas traseiras do Tribunal em 1981. Para “lavar” talvez, um pouco a imagem pejorativa que alguns poderão dar a esta tradição, foi concebido o verso seguinte:

« É a tradição que assevera
Que corremos tudo a pau
Mas nenhum de nós é fera
E fafense algum é mau. »

Galeria de imagens

Vídeos

2015 - Terra da Justiça acolhe fórum internacional de valores da Humanidade

Várias personalidades participaram neste fórum Internacional de causas e valores da Humanidade. O encontro realizou-se pela primeira vez, na localidade conhecida como a terra da justiça e do jogo do pau.

2002 - "A Justiça de Fafe" no Programa "Horizontes da Memória" - RTP

Separata do programa "Horizontes da Memória", transmitido pela RTP em 2002, com o tema "Os Brasileiros de Fafe". Neste episódio é apresentada uma breve sequência de Jogo do Pau protagonizada pelo Grupo de Jogo do Pau da Sociedade de Recreio Cepanense.

Ver também

Referências

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lenda_da_Justi%C3%A7a_de_Fafe
  2. José Viale Moutinho, "Portugal Lendário - Tesouro da tradição popular, Editora Temas e Debates, agosto de 2022"
  3. Artigo do jornal Diário de Lisboa nº 22114 : ano 66 de 18 julho de 1986, p.14