Mestre: Ernesto dos Santos
| Outros nomes | Ti Ernesto |
| Nascimento | 192(?) |
| Morte | (+/-) 1990 |
| Nacionalidade | Portuguesa |
| Naturalidade | Bucos |
| Escola | Cabeceiras |
| Local | Bucos |
Sobre
Ernesto dos Santos Touça, conhecido localmente por Ti Ernesto, foi uma das figuras mais importantes da história do Jogo do Pau de Bucos, desempenhando um papel decisivo na preservação e transmissão da tradição durante grande parte do século XX.[1]
Natural da freguesia de Bucos, iniciou-se no Jogo do Pau sob orientação do mestre itinerante Augusto Calado, oriundo de Vieira do Minho, de quem recebeu os fundamentos técnicos da escola local.[2] Mais tarde, tornou-se um dos principais responsáveis pela continuidade da modalidade na freguesia, assumindo funções de ensino e formando várias gerações de praticantes.[1]
Durante a juventude migrou para Leiria, onde trabalhou na fábrica de cimento da Maceira-Liz. Apesar da distância, manteve sempre a ligação à sua terra natal e ao Jogo do Pau, regressando regularmente a Bucos. Após a reforma, fixou-se novamente na freguesia, dedicando grande parte do seu tempo ao ensino da modalidade e à formação dos mais jovens.[1]
A sua experiência ultrapassou o contexto local. Durante a permanência em Lisboa frequentou o Ateneu Comercial de Lisboa, o Lisboa Ginásio Clube e o Sporting Clube de Portugal, onde contactou com outros ambientes desportivos e desenvolveu igualmente a prática do lançamento do martelo.[3] Estes conhecimentos contribuíram para o aperfeiçoamento das suas capacidades técnicas e pedagógicas, que posteriormente aplicou no ensino do Jogo do Pau em Bucos.
Foi um dos elementos centrais da reorganização da escola local durante as décadas de 1940 e 1950. Participou na preparação do grupo que representou Bucos nas festividades associadas ao concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, realizado em Braga em 1944, evento a que assistiu António de Oliveira Salazar.[1] Nessa ocasião, atuou juntamente com o seu irmão António dos Santos Touça, também reputado jogador da freguesia.
Nas décadas seguintes destacou-se sobretudo como instrutor. Organizou grupos juvenis de Jogo do Pau, transmitindo os ensinamentos recebidos de Augusto Calado e contribuindo para a formação de numerosos praticantes, entre os quais Orides Oliveira.[1] Segundo vários testemunhos locais, foi responsável pela aprendizagem de diversas gerações de jogadores, sendo recordado como um mestre paciente e profundamente dedicado à preservação da tradição.[3]
As suas aulas realizavam-se habitualmente no largo da Rechada, espaço que se tornou um dos principais centros informais de ensino do Jogo do Pau em Bucos. O treino seguia uma progressão técnica rigorosa, iniciando-se com o jogo da cruz, passando pelo contra-jogo, pancadas da cabeça, jogo do meio, jogo da cruz coletivo e terminando no ladeado, envolvendo todos os participantes presentes.[3]
Em 1969 participou na dinamização de um grupo de Jogo do Pau que realizou demonstrações para uma equipa de reportagem alemã e para o Museu de Etnografia de Lisboa, contribuindo para a divulgação da tradição de Bucos junto de públicos nacionais e internacionais.[3]
A sua importância para a escola local foi reconhecida por diversos autores e investigadores. Rui Simões identificou-o como um dos principais continuadores da tradição iniciada por Augusto Calado, enquanto os testemunhos recolhidos em Bucos o recordam como o mestre que garantiu a transmissão do Jogo do Pau entre as gerações do pós-guerra.[2][1]
É atualmente lembrado como uma das figuras mais influentes da história do Grupo de Jogo do Pau de Bucos, tendo contribuído decisivamente para a sobrevivência da tradição até aos nossos dias.
A aula do Mestre
As aulas eram feitas no largo da Rechada.
Logo que se chegava à Rechada, fazia-se uma cruz no chão e jogava-se individualmente o jogo da cruz; depois passavam para o jogo de 2 jogadores: o contra jogo e pancadas da cabeça; seguia-se o jogo do meio com 3 jogadores; fazia-se o jogo da cruz, (cruz feita com os paus ao centro da roda) com 4 ou 5 jogadores e no final o ladeado com todos na roda e um ou 2 jogadores dentro da roda conforme o número de participantes. Contrajogo e pancadas da cabeça.[4]
Publicações onde é citado
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Cabeceiras de Basto acolheu, em 29 de Maio o Encontro Nacional de Jogo de Pau. (...) |
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Em Terras de Basto, aonde o jogo é referido por oposição ao de Fafe em formas mais próximas do segundo estilo - dito do Norte e que enunciamos de seguida: há um elevado número de jogadores, actualmente inactivos, discípulos dos mestres Custódio Bráz de Bucos (Cabeceiras de Basto), Adelino Barroso de Salto (Barroso) respectivamente, e ainda António Gonçalves de Tecla (Celorico de Basto), discípulos do mestre Ernesto aluno do "Cigano" ("Na região de Basto ficou celebre um cigano que andava de terra em terra e de feira em feira, e cujo jogo se caracterizou por um estilo particularmente violento...); estilo praticado teve forte influência das estadias regulares do mestre Calado Campos (pai).
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A história do jogo do pau em Bucos, tão calada no seu segredo, é sobretudo carregada de recordações e imagens aprendidas. Decididamente uma escola poderosíssima. O presidente da Associação D. C. S. J. B. Bucos sabe só que «mestre» Calado, do vizinho concelho de Vieira do Minho, iniciou muitos jovens de Bucos no manejo do pau. E que Adelino Barroso continuou a tarefa já iniciada, transformando muitos rapazes em hábeis jogadores. Posteriormente, Ernesto dos Santos, que aprendera com o «mestre» Calado os alicerces da «escola» de bucos ensinando essa arte que poderá datar de séculos ou de milénios.» |
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«(...) Revelou-nos ser irmão de Ernesto Santos, um exímio jogador, que partiu para Leiria, onde trabalhou numa grande fábrica, tendo regressado a Bucos quando se reformou. |
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« (...) Com o Mestre Ernesto dos Santos, no largo da Rechada, aprendi todos os movimentos e técnicas dos jogos realizados pelo grupo do jogo do pau: jogo da cruz, contra jogo, jogo do meio, jogo da cruz 4, jogo das pancadas na cabeça, jogo do ladeado. Por razões de estudos e por ter residido fora da Freguesia nunca fui um elemento dos grupos de jogo de pau formados ao longo dos anos. A minha experiência foi pequena, mas fiz toda a aprendizagem para ser um elemento do grupo do jogo de pau de Bucos. Logo que chegávamos à Rechada, fazíamos uma cruz no chão e jogávamos individualmente o jogo da cruz; depois passávamos para o jogo de 2 jogadores: o contra jogo e pancadas da cabeça; seguia-se o jogo do meio com 3 jogadores; fazia-se o jogo da cruz, (cruz feita com os paus ao centro da roda) com 4 ou 5 jogadores e no final o ladeado com todos na roda e um ou 2 jogadores dentro da roda conforme o número de participantes. Contrajogo e pancadas da cabeça.
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(...)
Os anos de 1957/58 ficaram marcados, nesta Freguesia [Bucos], pela escola de jogo do pau de Mestre Calado. Mestre Calado, um homem simples, sem eira nem beira, de cor mourisca. Chegou a Bucos sem saber o que fazer, sem dinheiro, família desconhecida, sem local para dormir. A sua habilidade estava voltada para o jogo do pau, assim o demonstrou na eira da Casa da Pereira. A Casa do Martins, hoje do Manuel do Orides, abriu-lhe as portas, onde se hospedou e ajudava em pequenos trabalhos. Nas tardes, deslocava-se até ao largo da Rechada, onde fazia algumas habilidades com o seu pau e deliciava os jovens na altura. Os jovens de Bucos aderiram à sua habilidade e proposeram-lhe a orientação de uma escola de jogo de pau. Nessa altura, já havia alguns bons jogadores de pau em Bucos: Ernesto dos Santos, José de Piornedo, Brás da Pereira, Barroso de Vila Boa, Orides, Manuel do Anelho. Mas Mestre Calado era muito mais hábil, mais espetacular, fàcilmente captou o interesse de muitos Buquenses. Aderiram Custódio de Piornedo, José de Piornedo, josé Silva (da Luisa), Fernando Lima (do Gídio), Artur Ramalho (do Maria Teresa), Manuel do Anelho, Orides Fontes, Avelino Fecheira, Ernesto dos Santos, Custódio Brás, meu pai, José do Freitas, Alfredo Serra; alguns alunos de Vila Boa: Manuel Pereira (Silvina), Manuel Barreto, Abílio? Dixe; alguna alunos de Carrazedo Jaime Dias e Américo Dias. A escola do Jogo de pau de Bucos de Mestre Calado foi o início do GRUPO DO JOGO DO PAU SÃO JOÃO BATISTA DE BUCOS, ainda hoje existente. Obrigado, Mestre Calado.
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Conhecimentos técnico
Mestres onde obteve conhecimentos técnicos do Jogo do Pau português:
- Mestre Augusto Calado (itinerante de Vieira do Minho)
| Linhagem de Mestres (Link externo) | Toda a escola de Cabeceiras (Link externo) |
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| Faça duplo clique sobre o nome do Mestre para abrir o seu perfil. Abaixo de cada um, é indicado o período da sua prática (com possível margem de erro), podendo também faltar Mestres ainda não identificados ou introduzidos na nossa Wikipédia | |
Galeria de imagens
| Foto de 1944 antes da apresentação para o Presidente Salazar, em Braga, onde podemos ver, da esquerda para a direita: José Henriques Simões (“José do Piornedo”) da Casa de Piornedo, Ourides Fontes Urjais ("Orides Oliveira"), Ernesto dos Santos Touça, José Freitas Pereira (?), José Travessa ("José do Barreiro"), Antonio dos Santos Touça. [7] |
| Irmãos António Santos e Ernesto Santos, de Bucos a atuar em Braga no ano de 1944, num espetáculo público a que assistiu António de Oliveira Salazar. |
Vídeos
| 1966 - Grupo de Jogo do Pau de Bucos Este documentário mostra um pouco da vida rural de Bucos e tradição do Jogo do Pau nesta região. É entrevistado o Mestre Orides Oliveira e podemos ver jogo entre vários mestres e a escola juvenil do Ernesto dos Santos. |
Ver também
Referências
- ↑ 1,0 1,1 1,2 1,3 1,4 1,5 O jogo do pau em Bucos através de narrativas orais: a família de Mestre Orides (ler publicação).
- ↑ 2,0 2,1 Artigo A Lei do Pau, Notícias Magazine, 21 de novembro de 1993 (ler artigo).
- ↑ 3,0 3,1 3,2 3,3 Testemunhos recolhidos por Manuel de Oliveira Henriques Braz, publicados em http://casadesanoanedecima-manuel.blogspot.com/
- ↑ http://casadesanoanedecima-manuel.blogspot.com/
- ↑ Acesso online: http://casadesanoanedecima-manuel.blogspot.com/2020/
- ↑ Acesso online: http://casadesanoanedecima-manuel.blogspot.com/2020/
- ↑ http://casadesanoanedecima-manuel.blogspot.com/