Mestre: José Maria da Silveira

Fonte: Jogo do Pau Português
(Redirecionado de José Maria da Silveira)
Outros nomes O Saloio
Nascimento 1805
Morte 1888
Nacionalidade Portuguesa
Naturalidade Lisboa
Escola Lisboa

Sobre

José Maria da Silveira conhecido como «O Saloio» nasceu em 1805 na Calçada da Graça n.º 13 em Lisboa, e faleceu 1885.
A alcunha do Saloio fora motivada pelas cores rosadas do rosto, que lhe dava um aspeto rústico que contratava dos rostos citadinos. Era de constituição física alta, forte e de grande agilidade, segundo o livro do Mestre Caçador, chegava a fazer catorze retaguardas seguidas, isto é, catorze voltas sobre si, acompanhando o rápido giro do pau.[1]

Segundo Zacarias d'Aça[2], aos dezasseis anos (em 1821), já dava lições - já era mestre! Os seus professores foram os mais dextros que então havia em Lisboa, um deles era galego. Dr. José Pontes, comentando o artigo de Zacarias d'Aça reforça ainda que «aprendeu a jogar o pau com dois mestres, um galego, outro minhoto, cujos os nomes depressa esqueceram.».[3]

Aplicou a este jogo alguns movimentos da esgrima de sabre e florete, onde estudou e modificou. Fazendo assim, um estilo próprio, caracterizando-o como «esgrima nacional».

Deu lições na Rua Nova do Loureiro e num quintal da sua casa, no Largo dos Inglesinhos perto da igreja dos Caetanos, em Lisboa.

De todos os alunos que teve, o que deu continuidade do seu trabalho e ensino foi o Mestre Pedro Augusto da Silva.

Ficou também conhecido por ter ensinado Jogo do Pau ao Rei D. Carlos, que era um entusiasta e um praticante dedicado.

Conhecimentos técnico

Mestres onde obteve conhecimentos técnicos do Jogo do Pau português:

  • Mestre desconhecido (galego)
  • Mestre desconhecido (minhoto)

Publicações onde é citado

« (...) Carlos Relvas (...) contratou vários mestres, provinientes de diversos pontos do país (...)

Estes mestres, entre outros, terão sido o próprio José Maria da Silveira, Domingos Valente de Couras (Salréu), António Pereira Penela (1838-1908), e Joaquim Baú (contemporaneo do "Saloio), de Marco de Canavezes, mestre itenerante e que vivia do pagamento das lições dadas pelo pais. O que testemunha uma influência directa da técnica de Lisboa em alguns dos jogadores e posteriores mestres do Ribatejo. »
Artigo «O Jogo do Pau em Portugal: processos de mudança, Universidade Nova de Lisboa» 1990 (ver mais)

«Primeiro dos grandes mestres da esgrima do pau , é a ele a quem se deve o primeiro desenvolvimentos neste ramo de desporto, não obstante ter havido outros mestres no seu tempo, deixou bons esgrimistas, como Domingos de Couras Salréu e Pedro Augusto da Silva que vieram a ser representantes da sua Escola, que foi na Travessa dos Inglesinhos e na Rua nova do Loureiro.

Fundador da Escola de Lisboa, que assim se chama, por ser um tipo de esgrima diferente do das províncias, o qual nós ainda hoje adoptamos, possivelmente aperfeiçoado.

Em menino foi cantor de igreja e mais tarde praticou o jogo do pau.

Tinha à sua porta uma pedra muito grande e pesada com que media forças com a rapaziada do seu tempo. Deixou uma fama monumental como esgrimista do pau e foi mestre do nosso popularissimo e grande Rei D. Carlos.

Nasceu na Calçada da Graça nº 13 em Lisboa, no ano de 1805 e faleceu, com a idade de 83, em 1888.

(...)

José Maria da Silveira, deu lições na Rua Nova do Loureiro e Largo dos Inglesinhos (última escola), em Lisboa. »
CAÇADOR, António Nunes, Jogo do Pau: esgrima nacional, Lisboa: ed. Autor, 1963 (sobre o livro)

« Passando em revista os nomes dos jogadores e mestres famosos, mais uns que reza a tradição e outros que conhecemos contam-se (..) José Maria da Silveira «Saloio», um reformador da técnica; (...)

(...) O Ginásio Clube Português, de tradições brilhantíssimas e tantas vezes glorificado pelos altos serviços prestados à educação desportiva da mocidade, e, por conseguinte ao rejuvenescimento da raça, na realização do seu amplo e patriótico objectivo instituiu, em 1890 a classe de jogo de pau que ali teve o seu primeiro mestre Pedro Augusto da Silva discípulo e depois auxiliar do célebre José Maria Saloio. »
Artigo em «O Século Ilustrado» de 1952 (ler a notícia)

« José Maria Saloio prestou-se a tomar parte numa festa de caridade, fazendo exibição dos vistosos golpes em que era mestre. O seu antagonista, o discípulo favorito, respondia com brilho aos toques que aquele lhe disparava, o que fez pôr em dúvida a vitória do campeão. « Este , impassível, defendia-se, parecia que o custo, fugia dificultosamente com o corpo, protegia, dir-se-ía, que aflito, a cabeço, deixava o discípulo florear e apavonar-se com os aplausos que já vinha, da bancada, e, quando lá lhe pareceu, e todos quase apontavam o moço antagonista como vencedor, joga-lhe uma paulada à cabeça, atira-lhe com o pau para o chão e põe-no na arena sem sentidos. Surpresa geral nos espectadores. Passado o atordoamento dos primeiros instantes, os dois reconciliam-se «em campo», como é costume, e o vencido, depois de saudar o mestre, segredou-lhe ao ouvido:
- «O mestre não me tinha ensinado, ainda aquele bote...
E o José Maria Saloio, muito natural e pachorrentamente:
- «Nem ensino. Aquele joguinho é só para mim».
COSTA, Mário, Feiras e outros divertimentos populares de Lisboa, Municipio de Lisboa, 1950 (sobre o livro) »

« Jogo do pau : Esgrima característica portuguesa, há mais de dois séculos praticada pela gente do povo em algumas províncias, com o varapau, arma natural de que dispunha e que em princípios do século passado foi introduzida nos meios desportivos da capital por José Maria Silveira, conhecido pelo Saloio e a quem Eduardo Noronha se refere no seu livro O Último Marquês de Nisa
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Enciclopédia, Limitada, volume XX, 1949 (sobre o livro)

« A Escola de Lisboa, sem dúvida a mais brilhante da esgrima, portuguesa, foi fundada por José Maria da Silveira, que nasceu em 1805, num prédio da Calçada da Graça, Nº 13 (...)

É o jogo cuja base é a escola do celebre José Maria da Silveira, enriquecida com os famosos «cortes» do grande mestre Domingos Salreu e depois aperfeiçoada por José Gonçalves Dias (o 95) que, com a sua excepcional competência, conseguiu dar um notável desenvolvimento ao jogo de «cortes» e de «recortes». »
Artigo em «Novidades» de 1943 (ver mais)

«(...) colossal de estatura, desempenado, fonte energética, de cores sadias, faces de home decidido foi durante muito tempo cabo de coristas de S. Carlos. Tinha uma voz fortísima e vibrante de "baixo profundo". (...) Os pulsos eram grossíssimos. Nas mãos tinha força prodigiosa!... conta-se (...) ele assentava os dedos sobre cinco cruzados novos, postos numa mesa, e desafiava todos a demover-lhe o braço naquela posição! (...) nenhum dos homens mais esforçados de então conseguiam ganhar a aposta! O braço era de bronze - parecia fundido!
Ao canto da sua casa tinha uma grande bola de pedra, pesada e de enorme volume. Chamava-lhe a bola da paciencia, porque todos queriam levanta-la e a todos escorregava das mãos. Os mais reforçados de corporatura não conseguiam ergue-la, mas o Saloio fazia dela quanto queria!»
PONTES, José, Quási um século de desporto (1834-1924), Sociedade Nacional de Tipografia, Lisboa, 1924, p.25-26 (sobre o livro)

« (...) [Pedro Augusto da Silva] Discipulo directo do grande jogador de pau Jose Maria Saloio, foi na caza d'elle, no canto junto à igreja dos Caetanos, n'um quintal que ali existe, onde tambem era o popular theatrinho dos Inglezinhos, que se faziam magnificas sessões de jogo de pau, onde muitas vezes estivemos, gozando este bello trabalho de esgerima puramente nacional: d'alli sahiram bons discipulos, e, Pedro Augusto um bom mestre. (...) »
Artigo "O Tiro civil", número 130 de 15 Janeiro 1898 (ver recorte jornal)

« De fóra de Lisboa (de Setubal, se bem me recordo) viera a Lisboa um pimpão, para conhecer e comprimentar o Saloio. Quando logrou encontral-o apertou-lhe a mão, e quebrou-lhe um dedo! O desfeiteado calou a dôr e a affronta, e passado tempo foi á terra do seu amigo, e abraçando-o com a effusão de quem retribue um favor — quebrou-lhe uma costella!»
PALMEIRIM, Luís Augusto, Os excêntricos do meu tempo, Lisboa: Imprensa Nacional, 1891, pp.263-272, p.271 (sobre o livro)

« Estamos ainda a vel-o, com o seu enorme gabão cor de canella, amarrado com um cordel a cintura, as suas enormes barbas brancas crecidas até ao ventre, os seus enormes tamancos, saltando, levissimo, como um rapaz de vinte annos, fazendo sarilhos com o seo pau de jogo, um pequeno bordão de metro e meio e que nas suas mãos, apesar de encarquilhadas já pelos oitenta annos, era uma arma terrivel.

José Maria Saloio, Linha o seu barracão de ensino nos Caetanos. Era uma casa terrena espaçosa, coberta por um tecto de telhaa vã, d'onde pendiam uns candieiros que bruxuleavam uma luz tibia e indecisa.

Esse barracão era a sala nobre onde José Maria Saloio recebia as suas visitas entre as quaes se contavam muitos grandes do reino.

Este velho era popularissimo em Lisboa. Tinha sido corista de S. Carlos durante muitos annos, acompanhando as funcções de mestre da banda dos ex-alumnos cegos da Casa Pia.

José Maria Saloio dedicara se ao jogo do pau em que era eximio. Tinha sempre muitos discipulos, dos quaes o mais notavel era o sr. Pedro Augusto da Silva.

Acabamos de saber que esse velho a quem os annos não tinham conseguido tirar a força e a agilidade succumbiu as 4 horas da manha.

Paz à sua alma. »
Artigo do jornal "O Economista" de 1883 (veja mais)

« Da democracia transcrevemos a seguinte notícia:
Ainda vive e reside na rua do loureiro o velho mestre do jogo de pau, - José Maria Saloio.
Ha sessenta annos que dá lições do verdadeiro jogo nacional, sem que até hoje apparecesse quem o egualasse.
Sabemos que actualmente se acha enfermo, e por isso nos apressamos em dar esta infausta noticia aos seus amigos, que são todos quantos o tinham por mestre.
José Maria Saloio é conhecido como o primeiro mestre do jogo do pau, e foi durante quarenta annos cabo dos coristas de S. Carlos.
Foi sempre um homem de bem, probo e honradissimo: cumprimos um dever lembrando aos seus diacipulos que o seu velho mestre precisa dos que o estimam. »
Jornal da Noite de 1878 (ver mais)

«José Maria Saloio, que ainda dura, já hoje velho e dobrado, distinguiu se sempre nos lances de valentia, no vigor, na robustez, e também na prudência com que evitava os conflictos até o momento de os julgar indispensáveis.»
MACHADO, Júlio César, Á lareira, Lisboa: Livraria de Campos Júnior, 1872 (no conto «O homem das forças») (sobre o livro)

« (...) respondia com brilho aos toques que aquele lhe disparava, o que fêz pôr em dúvida a vitória do campeão. (...), e, quando lá lhe pareceu, e todos quase apontavam o moço antagonista como vencedor, joga-lhe uma paulada à cabeça, atira-lhe com o pau para o chão e põe-no na arena sem sentidos. Surpresa geral nos espectadores. Passado o atordoamento dos primeiros instantes, os dois reconciliarem-se «em campo», como costume, e o vencido, depois de saudar o mestre, segredou-lhe ao ourido:

- mestre não me tinha ensinado, ainda, aquele bote...

E José Maria Saloio, muito natural e pachorrentamente:

- Nem ensino. Aquele joguinho é só para mim. »
SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Teatros (secção), in O Século, Lisboa (ver mais)

Artigo do Jornal «O Tiro civil»

Destaca-se o artigo de Zacharias d’Aça ao longo de seis números do jornal O Tiro civil, sobre o Mestre José Maria da Silveira, e o seu contra-mestre Pedro Augusto da Silva.

Veja todo o artigo compilado aqui

  1. Edição 6 (181) de 1 Março 1900 p.4-5 : O mestre José Maria da Silveira - O saloio (I) (ler o jornal completo)
  2. Edição 6 (182) de 15 Março 1900 p.5-6 : O mestre José Maria da Silveira (II) (ler o jornal completo)
  3. Edição 6 (187) de 1 Junho 1900 p.8 : O mestre José Maria da Silveira (III) (ler o jornal completo)
  4. Edição 6 (189) de 1 Julho 1900 p.5-6 : O mestre José Maria da Silveira (VI) (ler o jornal completo)
  5. Edição 6 (196) de 15 Outubro 1900 p.3-4 : O mestre José Maria da Silveira (V) - Pedro Augusto - o contra-mestre de José Maria (ler o jornal completo)
  6. Edição 6 (197) de 1 Novembro 1900 p.5 : O mestre José Maria da Silveira (VI) - Pedro Augusto - o contra-mestre de José Maria (ler o jornal completo)

Separata do Livro: Lisboa moderna

No livro Lisboa Moderna de 1906, Zacharias d’Aça, reserva 13 página para reescrever o artigo publicado anteriormente no «Diário da Manhã» em 1883, e depois em 1900, no «O Tiro Civil».

Galeria de imagens

Ver também

Referências