Mestre: Augusto Calado
Sobre
Mestre Augusto Lopes Morais Calado, também conhecido por Calado Campos ou «o Preto», foi um dos mais influentes mestres itinerantes do Jogo do Pau Português durante a primeira metade do século XX. Natural de Benguela, em Angola,[1] fixou residência durante parte da sua vida na região da Barragem da Venda Nova, freguesia de Campos, concelho de Vieira do Minho, a partir de onde desenvolveu uma intensa atividade de ensino que marcou profundamente várias escolas regionais do país.[2]
A documentação atualmente conhecida permite seguir a sua atividade desde pelo menos 1917, quando residia em Alfarelos e ministrava lições no Ginásio Clube Figueirense, cobrando 3$00 por aula.[3] Ao longo das décadas seguintes percorreu diversas regiões de Portugal, ensinando e realizando exibições públicas, tornando-se uma das figuras mais conhecidas do panorama nacional do Jogo do Pau. A sua presença está documentada em localidades tão diversas como Vieira do Minho, Cabeceiras de Basto, Figueira da Foz, Leiria, Ribatejo, Palmela, Setúbal e Évora.[4]
A importância histórica de Augusto Calado resulta sobretudo da influência que exerceu sobre várias das mais importantes linhagens do século XX. Entre os seus discípulos encontram-se António Moleiro, que recebeu lições suas em 1919 antes de prosseguir a aprendizagem com Domingos Miguel,[5] e Domingos Henrique Margarido, figura central da escola rival do Pinhal Novo.[6] Em Terras de Basto, a sua influência foi igualmente determinante, tendo introduzido numerosos jovens ao manejo do pau e contribuído para a formação da tradição que mais tarde seria consolidada por Ernesto dos Santos, Adelino Barroso e outros praticantes da região.[7][8]
As fontes descrevem-no como um mestre itinerante de enorme reputação, associado a um estilo particularmente duro e combativo. Em entrevista recolhida por Rui Simões, António Brinca refere que o jogo de Domingos Henrique Margarido conservava características do jogo de Domingos Varejão e de Augusto Calado, distinguindo-se do estilo praticado por António Moleiro.[9]
Ao lado do seu filho Domingos Lopes Morais Calado, realizou diversas exibições públicas e espetáculos de Jogo do Pau. Em 1936, ambos foram anunciados em Évora como «esgrimistas profissionais», protagonizando um combate público amplamente divulgado na imprensa local.[10] Existem igualmente registos da sua participação em espetáculos na Moita e noutras localidades, onde o nome dos «Calados» ficou associado às grandes demonstrações públicas da época.[11]
Teve três filhos, mas apenas Domingos Calado seguiu o caminho do pai e se tornou praticante e demonstrador de Jogo do Pau.[12]
Embora a sua linhagem técnica permaneça desconhecida, a documentação existente permite reconhecer Augusto Calado como uma das figuras mais influentes na disseminação do Jogo do Pau durante a primeira metade do século XX. Através do ensino direto e da formação de diversos mestres que posteriormente criaram escolas próprias, a sua influência estendeu-se desde o Minho até ao Sul do país, tornando-o num dos principais agentes de transmissão desta arte marcial portuguesa.
Percurso
- 1917 - Vivia em Alfarelos (Soure, Coimbra) e deu lições no Ginásio Clube Figueirense;
- 1919 - Deu lições ao Mestre António Moleiro em Valdera (Pinhal Novo);
- 1923 - Vivia ainda em Coimbra;
- 1923 - Fez assaltos com o seu filho Domingos Calado, com 12 anos, na Moita;
- 1927 - Vivia na Povoa de Lanhoso[13];
- 1930 - Vivia e deu aulas em Leiria. Um dos alunos foi ensinar para Bucos. Calado foi depois mais tarde[14];
- 1930 - Deu lições em Bucos;
- 1936 - Fez uma exibição em Évora com o seu filho Domingos Calado.
Publicações onde é citado
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A história do jogo do pau em Bucos, tão calada no seu segredo, é sobretudo carregada de recordações e imagens aprendidas. Decididamente uma escola poderosíssima. O presidente da Associação D. C. S. J. B. Bucos sabe só que «mestre» Calado, do vizinho concelho de Vieira do Minho, iniciou muitos jovens de Bucos no manejo do pau. E que Adelino Barroso continuou a tarefa já iniciada, transformando muitos rapazes em hábeis jogadores. Posteriormente, Ernesto dos Santos, que aprendera com o «mestre» Calado os alicerces da «escola» de Bucos ensinando essa arte que poderá datar de séculos ou de milénios
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« (...) itenerantes, também, foram Calado Campos ("o Preto"), mestre da barragem da Venda Nova, e o filho, que deram lições tanto em Terras de Basto como no Distrito de Setúbal. (...) Era de resto de esperar uma significativa influencia das, escolas de Lisboa, aonde alguns mestres da região tinham aprendido (para além da presença do mestre Calado Campos, célebre mestre itenerante, que também passou pela zona, tendo tido por discipulo Domingos Henrique Margarido). (...) "O Margarido era (tinha) um jogo diferente do jogo do Moleiro. O jogo do Moleiro era um jogo mais ou menos o do jogo do Ateneu Comercial: (...) O do Margarido era um jogo duro, de um jogador antigo, que era o Varejão... (e o jogo) do Calado» (Entrevista ao Mestre António Brinca em 1989). A escola do Pinhal Novo, rival da anterior, criada pelo mestre Domingos Henrique Margarido, natural do Pinhal Novo, e discípulo do mestre Calado, tinha um tipo de jogo extremamente violento, e manteve uma acesa rivalidade com a escola de mestre Moleiro (Valdera). (...) A Escola de Valdera foi liderada pelo mestre Antonio Moleiro, inicialmente aluno de mestre Daniel Lourenço (?), em 1911; em 1919, aprendeu com o mestre Calado Campos (o Preto), e posteriormente com o mestre Domingos Miguel. (...) Em Terras de Basto, aonde o jogo é referido por oposição ao de Fafe em formas mais próximas do segundo estilo - dito do Norte e que enunciamos de seguida: há um elevado número de jogadores, actualmente inactivos, discípulos dos mestres Custódio Bráz de Bucos (Cabeceiras de Basto), Adelino Barroso de Salto (Barroso) respectivamente, e ainda António Gonçalves de Tecla (Celorico de Basto), discípulos do mestre Ernesto aluno do "Cigano" ("Na região de Basto ficou celebre um cigano que andava de terra em terra e de feira em feira, e cujo jogo se caracterizou por um estilo particularmente violento...); estilo praticado teve forte influência das estadias regulares do mestre Calado Campos (pai).
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« Mestre António Moleiro. VALDERA. Recebeu as suas primeiras lições em 1911. O seu primeiro mestre foi Daniel Lourenço. Mais tarde, em 1919, fez-se discípulo do Mestre Calado (o Preto). A seguir continuou as suas lições com o mestre Domingos Miguel, com quem se aperfeiçoou até 1925. O mestre António Moleiro, hoje professor em Valdera, onde dirige uma classe numerosa, na qual tem bons jogadores, desempenha o seu cargo com alta proficiência. (...) Mestre Domingos Henrique Margarido. Natural de Pinhal Novo, foi discipulo do mestre Calado ensinou naquela região vários rapazes, tendo adquirido fama de grande jogador, foi muito admirado e apreciado pelos seus conterrâneos.
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(...) Anos depois houve novo período de aprendizagem, por sinal, brilhante embora num período curto. Foram instrutores um indivíduo de côr, de Alfarelos e António Barata.
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JOGO DE PÁU |
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Na velha Praça de Toiros da Vila da Moita, a partir do dia dia 26 de Novembro de 1922, o Jogo do Pau teve a sua estreia e fez parte em muitos espectáculos ali realizados, durante muitos e muitos anos.
Nomes que fizeram história no Jogo do Pau: |
Conhecimentos técnico
Mestres onde obteve conhecimentos técnicos do Jogo do Pau português:
- Mestre desconhecido
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Galeria de imagens
Pagamento das lições dadas pelo Mestre Augusto Calado no Ginásio Clube Figueirense. Cada lição custou 3$00 em 1917.
Foto do Mestre Augusto Calado com o filho Domingos de 12 anos, tirada num cartaz de espetáculo de 1923
Vídeos
| Compilações de entrevistas sobre os Calados 2017 - «Jogo do Pau - Os Guardiões da Tradição», entrevista com Orides Gonçalves de Oliveira (ver mais) |
Ver também
Referências
- ↑ Justificação de Batismo do irmão Domingos Calado (1909), Arquivo Distrital de Braga.
- ↑ SIMÕES, Rui Fernando Almeida, O Jogo do Pau em Portugal: processos de mudança, Universidade Nova de Lisboa, 1990.
- ↑ LOPES, Paulo, O Jogo do Pau Português, 5livros, 2020.
- ↑ SIMÕES, Rui Fernando Almeida, O Jogo do Pau em Portugal: processos de mudança, Universidade Nova de Lisboa, 1990.
- ↑ CAÇADOR, António Nunes, Jogo do Pau: esgrima nacional, Lisboa: ed. Autor, 1963.
- ↑ CAÇADOR, António Nunes, Jogo do Pau: esgrima nacional, Lisboa: ed. Autor, 1963.
- ↑ Artigo «A Lei do Pau», Notícias Magazine, 21 de Novembro de 1993.
- ↑ SIMÕES, Rui Fernando Almeida, O Jogo do Pau em Portugal: processos de mudança, Universidade Nova de Lisboa, 1990.
- ↑ SIMÕES, Rui Fernando Almeida, O Jogo do Pau em Portugal: processos de mudança, Universidade Nova de Lisboa, 1990.
- ↑ Folheto de divulgação de acontecimento desportivo em Évora com os Mestres Calado, 1936.
- ↑ Recorte de jornal sobre a história do Jogo do Pau na Moita.
- ↑ Informação transmitida pela familiar Adelina Morais Picão.
- ↑ Declaração feita em notário no dia 31 outubro 1927 informa que a sua residência era esse lugar
- ↑ Testemunho de Orides Gonçalves de Oliveira, na entrevista "Os Guardiões da Tradição", em 2015